sábado, dezembro 03, 2005

A Folha do teu Sorriso

Lembrei-me de ti.
Podes não acreditar, mas há uns dias, bastou um olhar fugaz lançado àquela pequena flor, para que te resgatasse por uns instantes.
Qual flor, perguntas?
Tu não a conheces, nem nunca a irás saborear com os teus olhos, senão nestas linhas: a sua beleza efémera estilhaçada nesta minha descrição insuficiente.
Estava a vaguear despreocupadamente no jardins de Azay-le-Rideau, quando a vi, bem perto do lago redondo, aquele que está envolto numa manta voluptuosa de algas e ocultado pela languidez de uns chorões.
Era uma pequena planta, desamparada e esquecida no meio da folhagem ainda vivaz, a acenar-me timidamente.
Podia facilmente ter ido ao encontro daquelas estrelícias que se pavoneavam no canteiro dos tijolos velhos, exibindo sem qualquer pudor as suas cristas de fogo. Estavam numa espécie de dança sensual com a brisa aveludada que se sentia naquela manhã.

No entanto, optei por visitar aquela singela flor, não consigo descortinar o porquê.
Aproximei-me dela para escutar o que tinha para me dizer. Era tão simplesmente o amarelo das suas pétalas.
A luz que delas saía com uma força inebriante, percorreu a minha retina, e encontrou-te por entre um punhado de memórias há muito engavetadas.
Não sei se foi a sua cor que me fez recordar o dourado daqueles longos e secretos fios que moravam por entre o teu cabelo, naquele mar de noz-moscada. Sinto que sim.

Lembrei-me de ti.
Lembrei-me de como os teus olhos se escondiam infantilmente ao sentir o teu sorriso chegar, do brilho redobrado com o qual ressurgiam.
Lembrei-me do calor dos teus lábios, do seu tom quase tinto no Outono, quando imitavam naturalmente as roupagens das folhas.
Sabes que não acredito em desígnios insondáveis, mas não pude deixar de atentar naquela folha rubra a descansar no regaço da «tua» planta; não consegui evitar a saudade da tua boca.

9 Comments:

At 3:59 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Não sei se a "Musa" merece o texto ou se o sorriso está na Folha.
Tenho só uma certeza, é que quem assim escreve, merece Parabéns.

 
At 10:12 da tarde, Blogger TF said...

Não é uma questão de merecimento, uma vez que a musa é imaginária, não tem nome.
De qualquer das maneiras, Obrigado pelo elogio. :)

 
At 5:48 da tarde, Blogger Tzipporah said...

:) muito bonito!!
É de ficar sem palavras...

 
At 1:49 da tarde, Blogger TF said...

Obrigado pelo comentário. :)
No que toca as estas minhas estórias, aqui no blog, és a primeira não-anónima a fazê-lo. Bem-haja.

 
At 10:44 da tarde, Blogger Tzipporah said...

Confesso que pensei duas vezes antes de o fazer porque é algo que acaba por ser bastante íntimo e é estranho comentar ...mas as pessoas de certeza que gostam, talvez não saibam se devem comentar...ou o k comentar..
Mas força contínua...

 
At 12:28 da tarde, Anonymous Anónimo said...

podes ainda não conhecer a MUSA mas acredita que ela existe! e já agora ... quem assim escreve não é gago!!!
lb

 
At 4:26 da manhã, Blogger Sara said...

é verdade que ando desaparecida, e mesmo afastada, até do meio cibernético, mas não posso deixar de comentar esta pequena estória...

wow, muitos parabéns, continua que tens mesmo futuro!

 
At 1:50 da tarde, Blogger TF said...

Obrigado, S. :D
Também ando afastado da blogosfera. Já não escrevo um post há mais de um mês e não é por falta de assunto.
O problema é que passo os dias a ler toneladas de papéis, numa actividade que não ouso nomear porque a palavra até dói.
Pode ser que um dia destes arranje tempo. :p

 
At 4:42 da tarde, Anonymous catarina sousa (Cat) said...

ola tiago! ja n nos vemos ha mt tempo m vejo que cont a escrever lindamente. o teu jeito pa escrita é evidente! adorei o poema, bendita musa. a musa que te escolher será uma sortuda! um beijo

 

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