domingo, novembro 27, 2005

Sumário da Vintena

Vinte dias passaram e eu não «postei». Hélas!
Isto por causa de uma apresentação que tive de elaborar para Organogénese e Embriogénese Vegetal In Vitro. Nesta «poltrona», a professora dá-nos capítulos de livros e artigos de revistas científicas para ler, a partir dos quais temos de dar uma aula aos nossos colegas sobre um dado assunto. Ao meu grupo, calhou o tema de «Sementes Sintéticas»: embriões somáticos (ou outras estruturas vegetais) encapsulados numa matriz gelatinosa (e.g., alginato de sódio).
O trabalho é sobre o seu desenvolvimento e optimização para futura comercialização. Até é interessante. A minha parte da apresentação correu bem, mas a «aula» só vai ser concluída esta semana devido à falta de tempo.

Mais grave de que o tamanho da minha ausência da «blogosfera» é o facto de o meu blog ter completado 1 ano no passado dia 17 e eu não lhe ter soprado qualquer vela. Bem sei que ele está um pouco moribundo, mas ainda não esticou o pernil. O dia chegará.
[Só um pequeno aparte: o meu Muito Obrigado a todos aqueles que ao longo deste ano de algum modo contribuíram para este meu mini-projecto.
Agradeço a quem comentou: in situ (conhecido ou desconhecido), via e-mail ou oralmente e também a quem criticou construtivamente. Estou grato por «me» terem lido.
Aprendi bastantes coisas ao ter pesquisado informação para certos posts e acima de tudo, não deixei perecer a minha escrita, cujas curvas e recheios continuamente questiono e tento melhorar.]
Retomando a narrativa...
Naturalmente que algumas coisas que fiz nestas semanas terão de ficar pelos neurónios e não vão passar para o ecrã. Isto já é sabido.

Vou começar pela minha ida a Braga.
No passado dia 11, fui visitar a «augusta» cidade para participar no 2º dia de palestras das VII Jornadas de Biologia Aplicada. Este evento é todos os anos organizado pelos alunos finalistas do curso de Biologia Aplicada da Universidade do Minho e inclui uma série de conferências dadas por especialistas de várias áreas ligadas às ciências biológicas (desde a Oncologia até à Biotecnologia Vegetal), bem como a possibilidade de participar em vários workshops.

Como a Tzipporah - companheira «bloguista» e amiga do Citcat - é uma das organizadoras, havia particular interesse nestas Jornadas. Ela teve aliás a gentileza de receber um bando de estranhos tresloucados na casa dela e de lhes mostrar a Universidade. :)
Fiquei com pena de não ter ido no dia 10 porque o programa era (sob o meu ponto de vista) mais cativante, mas as aulas revelaram-se um grilho.
De qualquer das maneiras, gostei bastante. Algumas conferências não foram bem a minha cup of tea, sobretudo as mais viradas para a Ecologia, mas todas foram muito enriquecedoras.
Houve três que me chamaram a atenção; a primeira foi sobre a utilização de leveduras na biorremediação de corantes. Ou seja, usar certas estirpes de, e.g., Saccharomyces sp., que sejam capazes de metabolizar corantes azo para tratar efluentes industriais/têxteis antes que estes sejam despejados no meio ambiente, evitando assim que os rios fiquem como um arco-íris. A Doutora Patrícia Ramalho (U.Minho) está a optimizar as condições necessárias para estas degradações microbianas de corantes. Talvez num futuro próximo se possa aplicar esta tecnologia às ETARs. Seriam boas notícias.

Saccharomyces cerevisiae

A seguir tenho a destacar a do Dr. Mário Leitão (Escola de Mergulho Cavaleiros do Mar), um senhor de formação farmacêutica que se dedicou nos últimos anos à exploração subaquática do nosso mar, principalmente na zona costeira de Viana do Castelo.
No decorrer da apresentação, ele frisou várias vezes que em termos científicos não percebia nada de Biologia Marinha e que não ia «ensinar ao padre o Pai nosso». Disse aliás algo curioso e que me pôs a pensar: «Estou aqui a mostrar-vos esta biodiversidade marinha que conheço, mas da qual não sei falar
A conferência não me pareceu muito bem planeada, o discurso era desconexo, pouco articulado. Eram dezenas de fotografias de animais e plantas marinhos em sequência, com comentários improvisados.
Apesar disso, gostei. Não sei se foi a humildade grandiosa daquela frase que comoveu, se o infinito colorido dos slides que me relembrou a magia da vida dos oceanos. Algo me cativou.

Peixe-escorpião de Merlet


Foca barbuda

Nudibrânquio (molusco)


Por fim, agora numa vertente mais científica.
A última palestra das Jornadas, dada pelo Prof. Dr. Francisco Carrapiço (U.Lisboa), foi para mim a mais interessante, porque tocou num tema que acho dos mais fascinantes em Biologia: a origem e evolução da vida.
Todos sabemos que desde a grande pedrada no charco que foi a publicação de "A Origem das Espécies" (fez 146 anos neste dia 24) pelo naturalista britânico Charles Darwin, este assunto sofreu uma revolução.
Darwin, ao publicar a sua teoria sobre a selecção natural, veio contradizer o estabelecido por séculos de doutrina judaico-cristã: a imutabilidade das espécies. Com isto, abanou seriamente os alicerces de uma boa parte da sociedade e veio contribuir para a desmistificação de alguns dos preceitos patentes no Génesis; nos quais assentavam várias das teorias creacionista reinantes.

Charles Darwin em 1859
(atentem na imagem de marca: a excelsa calote)


Um dos baluartes da teoria Darwiniana é a selecção natural, ou por outras palavras, a «sobrevivência do mais apto». Ora isto parte do pressuposto de que os organismos (indivíduos) lutam entre si pelos recursos disponíveis; a competição é portanto o «motor» da evolução.
Por causa disto, hoje em dia, há cientistas que definem a teoria de Darwin como incompleta ou mesmo incorrecta. Estes homens de ciência defendem que um factor de extrema importância na evolução é, não a concorrência, mas a cooperação, a conjugação de esforços.
Como exemplo paradigmático temos a Teoria Endossimbiótica, hoje largamente aceite graças ao importante trabalho da bióloga norte-americana Lynn Margulis (curiosidade: foi casada com o astrónomo Carl Sagan). Convém referir também o nome de Constantin Merezhkowsky, biólogo russo que já em 1909 usava o conceito de simbiogénese, apontando para uma «origem dos organismos pela combinação ou associação de dois ou vários seres que entram em simbiose».
Uma simbiose é por definição uma associação de dois seres vivos diferentes com proveito mútuo.
Pensa-se que as actuais células eucarióticas (animais, plantas e fungos) terão evoluído a partir de sucessivas (endo)simbioses entre células procarióticas mais primitvas («bactérias»). Posteriormente, estas novas células agregaram-se para formar organismos multicelulares, ou seja, nós. Isto ocorreu naturalmente há vários milhões de anos.
Vários tipos de simbiose terão levado à formação: do núcleo (onde se encontra o material genético, o DNA), de organelos celulares como as mitocôndiras (essenciais para as nossas células obtenham a energia necessária para o seu funcionamento) e de cloroplastos (compartimentos existentes nas plantas e nas algas que lhes permitem ultilizar a luz solar para fabricar o seu próprio alimento).

Sob um certo ponto de vista, podemos afirmar que nós somos uma miscelânea, uma amalgama de bactérias, vírus, etc.
Curiosamente, os Darwinistas foram no séc. XIX enormes promotores da mudança de mentalidades e da abolição de dogmas instalados.
Paradoxalmente, há hoje alguns que se agarram ao dogma neo-Darwiniano com unhas e dentes e não parecem estar dispostos a ouvir estes novos argumentos da escola endossimbiótica. É triste constatar como o ser humano é sempre tão avesso à mudança, e contra mim falo, obviamente.
Concluindo, a palestra foi muito motivadora. Tive a oportunidade de perguntar ao Prof. Carrapiço a opinião dele sobre o que se está a passar neste momento nos States: o Pres. Bush declarou-se a favor do ensino nas escolas do «Design Inteligente», que é um neo-creacionismo, é uma teoria que tenta explicar como a «mão» de Deus guiou todo o curso da evolução. Convém também acrescentar que cerca de 50% (!) da população norte-americana acredita no creacionismo fixista da bíblia, cerca de 40% acredita numa espécie de Design Inteligente e que apenas 10% acredita na Evolução «pura e dura». Enfim, mais um dado a acrescentar à considerável lista que me faz ser «um pouco» desconfiado em relação àquele povo.

Falando agora de cinema, fui ver anteontem a «bomba» do momento : "Harry Potter e o Cálice de Fogo".

Não li o livro, daí não poder opinar quanto à qualidade da adaptação.
Quanto ao filme em si, posso dizer que no geral gostei bastante, mesmo com a tradução de qualidade duvidosa: refere-se ao «Prof. Sprout» quando este é uma mulher e usa palavras como «bera» que para mim continua a ser um regionalismo lisboeta – isto é só um juízo, claro.
Apesar de ter apreciado mais da trama do filme anterior, esta também tem o seu interesse, se bem que uso sistemático por parte da autora dos sucessivos novos professores da «Defesa contra as Artes Negras» como peça pivot no desenrolar das estórias já começa a cansar um pouco.
De resto, as actuações dos três principais e jovens actores têm vindo a melhorar a olhos vistos e os efeitos especiais idem.

Quero só apontar mais um aspecto: a clara evolução dos filmes (e suponho que também dos livros) no sentido de um universo mais sombrio e violento, i.e., cortam-se mãos, assassinam-se pessoas, há medos e ameaças muito mais reais do que no já longínquo e «Disneyano» primeiro filme. Filmes para crianças muito pequenas?...Não sei.
Apesar desta mudança de tom, continua a haver as eternas lições de moral e ainda bem.


Mudando de assunto... Ontem, fui à festa de anos do FL. Ainda nos pusemos a ver o «Matrix Revolutions» para recordar uns quantos pormenores. Empanturrámo-nos todos com comida e depois fomos para o Vogue, estabelecimento de diversão nocturna, vulgo discoteca. (Sim, eu!, o puritano frígido!)
O ZP e eu fomos os primeiros a chegar. Estava lá um pequeno maralhal ansioso por entrar, nem que não fosse só para fugir do gelo petrificante que se sentia no exterior.
E não é que mal o ZP e eu nos aproximamos do passeio, o porteiro (estilo Mourinho) se vira para nós com um sorriso Aquafresh, afasta o resto das pessoas da frente, e diz: «Os senhores, p.f.... Desejam entrar?». Pausámos um pouco para contemplar o momento, com natural estupefacção seja dito, e lá entrámos, deixando para trás uns quantos personagens que nos lançaram uns olhares raivosos.
Incrível!, parecia uma daquelas situações «hollywoodescas».
Eu suponho que isto tenha acontecido por causa do ZP, já que eu não tinha a barba feita, e como toda a gente que me conhece pode constatar, a partir de um certo comprimento piloso eu fico com ar de arrumador, ou não tivesse já eu sido cumprimentado na rua por um fellow.
Esperámos um pouco pelos outros no hall e lá entrámos no saloon propriamente dito.
Nas duas horas seguintes, tentei ocasionalmente simular com o meu corpo qualquer coisa que se assemelhasse vagamente a uma dança, mas que ao mesmo tempo não me envergonhasse para a próxima década. Espero tê-lo conseguido. lol

Bem, vou regressar ao estudo pianístico, a ver se ainda treino um bocado de uma peça nova que comprei, o Concerto BWV973 de Bach. Aquilo originalmente é um concerto de violino de Vivaldi, mas Bach transcreveu-o para teclado: é o melhor de dois mundos, design italiano com construção alemã. :)
Ouçam um bocado e vejam se não é estupendo. Enjoy!

domingo, novembro 06, 2005

«Liberdade» de Fernando Pessoa

Genial!

in «Público», 6/11/05