sexta-feira, outubro 07, 2005

O Código DanBrown

Acabei de reparar na data do último post. De facto, é lamentável que já cá não escreva há mais de um mês. Ainda ontem o Citcat se queixou que já estava farto de ver sempre o mesmo post aqui, ou seja, a fronha da musa anónima do Klimt.
A verdade é que ao longo de Setembro estive várias vezes para cá vir, mas acabei por ficar sempre pelo desejo.
Tenho metros de história para contar, mas como é óbvio, não vou poder relatar tudo o que se passou nesta licença sabática.
Desde o último post, fui ao Algarve, vi filmes, ouvi CDs, li livros, as aulas começaram, etc.
Já sei: vou começar pela celulose impressa.
Infelizmente, e para minha vergonha, não leio muito. Por um lado, resisti sempre aos hábitos de leitura que me tentaram incutir em criança, e por outro, ao longo do semestre não tenho um cenário que me permita pôr a leitura em dia. Por causa deste último facto, aproveito sempre as férias para namorar umas páginas.
Desta vez, foi o super-hit internacional “The Da Vinci Code” do norte-americano Dan Brown.

Como já disse num dos posts anteriores, costumo fugir dos fenómenos de massa como o Diabo da cruz, mas a minha madrinha académica (oficiosa, claro, visto eu não participar em rituais Men in Black) ofereceu-mo, pelo que eu tratei de o ler.
Devo admitir que estava curioso para ver que coelho ia sair da cartola, ou seja, porque é que este livro vendeu milhões de cópias?
Pois já o li, e foi agradável. Não o acho genial e vou já tratar de explicar porquê. Não vou escrever uma crítica literária aprofundada, pois não tenho competência para tal; quero apenas dar a minha opinião, debatível, claro.
Um dos méritos que quase todos apontavam misticamente nesta obra era o facto de ser tão cativante que não se conseguia pousar. O que não me disseram é que isto é um policial. Logo, é natural que a sua estrutura nos prenda. Quem for leitor assíduo deste género, penso que concordará comigo.
Não tem nada de extraordinário, basta um simples artifício: enredar-nos numa trama cheia de acção, acabar o capítulo antes do clímax e colocar a resolução desse episódio no início do seguinte. Como é evidente, ao acabar um capítulo, queremos logo saltar para o próximo para não ficarmos em suspenso.
Outro truque a que o escritor recorre com um espírito quase formatado é o uso de várias linhas de acção simultâneas e alternadas por capítulos. Mais um mecanismo para nos agarrar a atenção. Como resultado disto, o livro tem uns espantosos 105 capítulos!
Para além da estrutura, o autor aposta numa escrita bastante fluida, sem grandes metafísicas, o que facilita amplamente o ritmo de leitura.
Aflorados os aspectos formais, convém atentar no conteúdo propriamente dito.
Diga-se que é quase universal o gosto por mistérios, enigmas, intriga, e mais recentemente pelas chamadas teorias da conspiração – um traço muito «estado-unidense» - por isso, não espanta que a obra seja um sucesso, sobretudo tendo em conta as matérias-primas: Jesus Cristo, a Igreja Católica, a Opus Dei, o Santo Graal, etc.
É espantoso, funciona quase como uma receita.
Uma das coisas que mais apreciei foram as descrições de vários locais que visitei, sobretudo em Paris – uma verdadeira viagem no tempo. Sobre os que não conheço, procurei logo fotos para satisfazer a curiosidade.
Outro grande ponto de interesse foi o facto de ter relembrado algumas noções e factos que estavam empoeirados no meu sótão cinzento e também ter aprendido muitas coisas novas que desconhecia. Infelizmente, fiquei a saber recentemente que o escritor apresenta como factos, situações que nunca ocorreram – algo que me decepcionou bastante.
Uma coisa é lermos a teoria altamente fantasiosa sobre o legado de Jesus Cristo e gostar disso, encarando-a como tal: uma tese, outra é manipular dados históricos e até inventar alguns, e.g., fazer uso de interpretações etimológicas erradas e dizer que os cavaleiros Templários foram chacinados e os seus corpos deitados pelo Papa ao rio Tibre – algo que nunca aconteceu.

Manuscrito francês do séc.XV mostrando dois templários na fogueira

Ora isto incomoda-me pelo seguinte: fiquei todo contente por ter adquirido novos e importantes conhecimentos, mas venho agora descobrir que não são dignos de confiança. Reparem que eu só sei de algumas imprecisões no “Código”, mas houve historiadores que escreveram livros inteiros só sobre as suas incorrecções. Fica a questão: O que é que é fantasia e realidade nesta obra?
À medida que ia folheando as páginas, pensava no seguinte: «Isto é uma valente bofetada na Opus Dei. Será que eles não processaram o Dan Brown por tê-los denegrido? E como é que eles estão impávidos e serenos a assistir a todo este fenómeno? E o filme que vai ser feito, eles não vão tentar impedir o projecto?». Ao tentar responder a estas perguntas, fui ter ao site da Opus Dei.
De facto, lá estava uma página a defenderem-se contra as supostas «calúnias» escritas no “Código”, mas fiquei sem saber se eles tomaram alguma medida judicial contra o D.Brown. Aproveitei também para conhecer melhor os meandros da instituição e a vida do seu fundador São (!) Josemaria Escrivá – sim, ele foi canonizado! Para quem quiser saber mais sobre esta pseudo-seita e as inúmeras polémicas que a rodeiam recomendo também a página da Wikipedia.

Josemaria Escrivá

Retomando a escrita do Sr. Castanho...
Outro elemento negativo (lamento referir mais um) foi o facto de eu ter adivinhado desde cedo a real identidade de uma das personagens (quem leu o livro, sabe de quem falo), o que me chateou um pouco.
Lembro-me de quando era pequeno e devorava livros da Agatha Christie; só houve um no qual eu consegui deslindar o fim. Por um lado, fiquei contente, mas por outro, achei que por esse facto, o livro não era bom. Fiquei com um gosto agridoce no meu espírito. O mesmo se passou com este: fiquei satisfeito por ver confirmadas as minhas suspeitas, mas desiludido por não ter sido iludido.
Vamos agora às «positividades»: um dos louvores que faço ao autor é o facto de ele se ter dado à considerável trabalheira de inventar todos aqueles versos e anagramas – tiro-lhe o chapéu.
Acima de tudo, gostei que ele tocasse e defendesse (pela voz do protagonista) dois assuntos que considero muito pertinentes: 1º - a temática da humanidade (e consequente mundaneidade) de Jesus Cristo (sobre a qual já escrevi há uns meses atrás), 2º - a perda da adoração do feminino nas religiões modernas, mais concretamente, no Cristianismo. Foi, tristemente diga-se, um dos factores decisivos para o estabelecimento do desequilíbrio entre sexos na sociedade ocidental. Sim, temos a Virgem Maria. Mas mesmo ela, é o caso de uma feminilidade condicionada e não na sua total força.

"Mary Magdalene" de F. Sandys, 1859

Concluindo, mesmo com os seus defeitos, recomendo-o, foi uma leitura bem interessante (que serviu, entre várias coisas, para revitalizar o meu inglês).
Tinha também planeado falar sobre uns concertos na Casa da Música, mas isso terá que ficar para a próxima vez.
Até lá. :)

4 Comments:

At 9:17 da tarde, Blogger nakamura_michiyo said...

Setá? Será verdade? É! O Vício fez um post novo! weeeeee :)
Concordo contigo quando consideras O Código Da Vinci um policial. É mesmo isso. O que fascina um bocado mais será, talvez, o facto de mexer com coisas tão presentes na realidade e que tanta gente toma como certa em vez de ser apenas uma questão de descobrir quem matou fulaninho ou sicraninho. Não sei se me sei explicar muito bem :P Também tens razão no que diz respeito aos "cliffhangers" que o Sr. Castanho usa no fim de cada capítulo (quando li Sr. Castanho, uma imagem do Mr. Hankey do South Park apareceu na minha cabeça... demorei uns segundos a perceber que estavas a falar do Dan Brown lolol xD mais uma vez a minha lentidão mental ultrapassa tudo); isso mais do que outra coisa faz uma pessoa ter vontade de ler mais e mais. Também foi um livro de que gostei bastante... já o anjos e demónios deixou a desejar, como já comentamos. Concordo com as positividades que lhe apontas, e está uma história bem engendrada. Resta-nos comprar uma das milhentas espécimes de livros estilo "codigo da vinci desvendado" ou "tudo o que ainda nao leu sobre o codigo da vinci" ou "o codigo da vinci para crianças dos 9 aos 13 anos" (pronto, este ultimo não existe, admito) para percebermos o que de facto é realidade e o que são liberdades criativas do Sr. Castanho. ******

 
At 10:32 da tarde, Blogger TF said...

Pois é...vou tentar ser mais assíduo, mas nos últimos tempos não tenho tido muita vontade de escrever posts.
Falando do Sr.Castanho... lol
Estou curioso para ver o filme do Ron Howard, não sei como é que eles vão «dar a volta» ao texto, que cenas vão cortar, etc.

 
At 10:48 da manhã, Blogger Tzipporah said...

"O Código de Da Vinci" é viciante e assino por baixo à maioria das tuas críticas positivas e negativas. Apenas acho deplorável o modo como exploram este livro com milhentos livros acerca, porque apesar das suas incoerências o livro é assumidamente na sua maioria ficção…É claro que há ideias que podem ser muito aliciantes e isso pode pôr em causa muitos dogmas, mas chegar ao ponto da Igreja Católica quase “banir” o livro…foi um pouco demais. Aliás como em tudo só o pôs mais popular.

 
At 12:35 da tarde, Blogger TF said...

Acho que a Igreja Católica só percebeu tardiamente que o melhor a fazer (para seu interesse) era não falar muito sobre o livro e ignorá-lo.
E concordo contigo no que toca aos livros sobre o "Código". Penso que os autores estavam mais interessados em parasitar o sucesso do D.Brown e ganhar o seu «dinheirinho» do que fazer uma crítica séria ao livro.

 

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