domingo, outubro 23, 2005

O Castelo Bem Temperado

Ontem, finalmente, saiu-me um caroço que estava desde há uma semana entalado na minha epiglote. Ainda bem, porque já estava a ver que precisava de uma manobra de Heimlich (os americanos têm uma panca com isto, não sei porquê). Custou, mas acabou por desaparecer.
Não se assustem, isto é tudo em sentido figurado, claro. :p
O que quero dizer é que andava em pulgas para ver o novo filme do japonês Hayao Miyazaki, «O Castelo Andante».

Fui vê-lo com o FP esta sexta-feira e sou capaz de repetir a dose um dia destes com o Puredo.
Desde «A Viagem de Chihiro» fiquei fã quase incondicional deste animador nipónico. Fui para a sala de cinema com as expectativas um pouco refreadas; aliás, forço-me sempre a isso, não vá o tombo ser grande.
Mas posso-vos agora dizer que não houve qualquer queda, bem pelo contrário: foi uma levitação.
O grau de fascínio com que fico a ver estes filmes é raro nos dias que correm, infelizmente. Não é só o deslumbramento visual que vem da mente do Miyazaki, a música é um pilar a não ser menosprezado. A partitura é do Joe Hisaishi, um compositor que participou também nos últimos êxitos do Estúdio Ghibli.
Já uma vez me pus a divagar sobre a magia da visão infantil do Miyazaki quando fiz um post sobre «A Viagem de Chihiro», por isso não vou repetir agora as minhas ideias sobre o assunto. Reafirmo apenas que a admiro como uma pedra preciosa.
O realizador como sempre mostra a sua adoração pelas paisagens e culturas europeias: as montanhas são claramente ao estilo dos Alpes (lembram-se da Heidi?, foi o Miyazaki que a criou) e a cidade de Sophie (a personagem principal) faz lembrar a arquitectura da Alsácia, sobretudo Colmar.
A região da Alsácia e da Lorena é um caso curioso: mudou várias vezes de mãos, ora gaulesas ora germânicas. Desde o fim da Guerra Franco-Prussiana em 1871 pertencia à Alemanha. Ora isto foi sempre uma pedra no sapato dos franceses, pelo que - como sabemos das aulas de História - trataram logo de corrigir o «engano» no Tratado de Versailles, após terem vencido a primeira Guerra Mundial, re-anexando o território.
Ainda hoje, a região tem várias localidades, tradições, artesanato e vinhos com nomes alemães, e uma porção considerável da população ainda fala a língua de Goethe. Aliás, Straßburg ou Strasbourg, a capital da região, não soa muito a francês.
A maior parte dos turistas vão visitar apenas Estrasburgo e esquecem-se de uma pequena grande cidade a sul, Colmar, que na minha humilde opinião põe a capital regional num chinelo. É uma vila extraordinariamente preservada, muito pitoresca. Vale muito a pena conhecê-la.

Quai de la Poissonnerie em Colmar
(Copyright©2004 Susanna Leon)

Bem, voltando ao filme...
Ao contrário de alguns, como o crítico do Público, eu não fiquei desiludido com o final da história. Não o acho abrupto, nem inesperado, nem mal preparado.
Quanto a mim, o problema é que estamos de tal maneira embalados naquela fábula, naquela narrativa de sonho, que não queremos que acabe o deleite. Estamos tão enredados naquela teia de imaginação açucarada que não acreditamos quando nos dizem que o stock está prestes a acabar.
O único defeito que poderia pôr a esta película do mestre Miyazaki é a ocasional ultrapassagem do limite de encantamento. (Se é que isso pode ser considerado um defeito.) Ou seja, o uso do fantástico é quase inebriante. Sobretudo na construção da cidade real, uma Viena delicodoce levada a um requinte extremo, ofuscante, over the top.
Há como sempre mensagens de índole moral: o não à guerra, a valorização da bondade, da amizade, do amor. É de louvar, porque a maior parte dos filmes ditos infantis têm uma linguagem bastante violenta.
É de referir os apontamentos de humor escondidos ao longo do filme, pequenos, brilhantes, impagáveis.

Mudando de assunto, nesse dia à noite, fui à inauguração da nova exposição do Museu de Serralves. Tem lá umas coisas bem porreiras.
Nunca pensei que estivesse lá tanta gente (e tanto fumo!).
A fauna que lá pululava era sobretudo de Belas-Artes. Aquilo é que são penteados, aquilo é que são roupas. E não estou a gozar. Oxalá houvesse mais pessoas assim.
Penso sempre que o Porto é uma cidade «fechada» (de um certo ponto de vista, claro) e pouco ou nada cosmopolita. E eis que vou a Serralves e dou de caras com um ambiente que bem podia ser o de uma reunião de habitués do MoMA em Nova-Iorque.
Só há uma questão que desde há uns tempos paira na minha cabeça: onde é que eles andam? É que eu não os vejo na rua. Parece que só saem das tocas nestas ocasiões. Provavelmente, devem andar em círculos sociais bastante fechados.

No sábado, aproveitei o fim da tarde para ver um DVD que comprei noutro dia, o último filme do octogenário Ingmar Bergman, «Saraband».

Desde pequeno que tenho um sério respeito pelos filmes deste realizador sueco. Sobretudo desde que vi um programa que a Inês de Medeiros tinha na RTP2 («O Filme da minha Vida») no qual o convidado era o Pedro Abrunhosa. O músico portuense escolheu «O Sétimo Selo», um filme que me deu um valente nó na cabeça. Nunca mais o vi, por isso atribuo-lhe uma certa aura de mitificação. É um clássico obscuro do cinema, de muito difícil compreensão. Há uns tempos fiquei pasmo quando vi a Morte (um famoso personagem deste filme) num videoclip dos «Da Weasel».
Ora este realizador de culto, esta vaca sagrada do cinema intelectual já estava quase «enterrada» quando há uns meses, out of the blue, surgiu um novo filme dele. E devido à panca do dito artista, o filme só foi exibido em salas de cinema com projecção de qualidade digital. Em Portugal, só há uma, é em Alvalade.
Como não sou maluco suficiente para o ir ver a Lisboa, esperei pela saída do DVD, que diga-se, tem estado permanentemente esgotado na banca do Público.
Pois a película revelou-se bastante interessante e de fácil interpretação. Tem uma boa fotografia e óptima música (o nome do filme vem de um andamento da Suite n.º5 para violoncelo de Bach, uma peça de um lamento muito perturbador).
O filme trata das múltiplas questões que rodeiam os relacionamentos humanos (sobretudo entre pais e filhos), ódios, paixões, enganos, ressentimentos, etc. Ou seja, vive quase exclusivamente dos diálogos e é um sucesso graças às magníficas actuações do elenco: Erland Josephson, Börje Ahlstedt, Julia Dufvenius e por fim, a espantosa Liv Ullmann.
Na minha modesta opinião, o filme não é literalmente uma obra-prima, mas é muito bom. Recomendo-o por ser humanamente enriquecedor e também por servir de iniciação ao Bergman.

Hoje, para rematar o fim-de-semana, fui à Casa da Música ouvir o último concerto do Festival «À Volta do Barroco»: a Angela Hewitt a tocar «O Cravo Bem Temperado» de Bach.

(Copyright© Simon Fowler)

Não tenho nenhum CD dela e nunca a ouvi ao vivo, mas sei pela nomeada que ela é uma excelente intérprete de Bach. Mesmo tendo consciência de que o programa é um pouco pesado, arrisquei. «Quem não arrisca, não petisca». E neste caso, era bem verdade.
O sarau foi muito bom, não foi «pesadão».

Então o que é isto de «O Cravo Bem Temperado»? Não é certamente um cravo em vinha d’alhos durante 24h ou todo esmurrado numa travessa com sumo de limão, sal e pimenta. :p
«O Cravo Bem Temperado» é dos mais importantes monumentos da história da música, é uma colectânea (Livros I & II) de «pequenas» peças para teclado, 48 Prelúdios e Fugas em todas as tonalidades existentes, nos 24 modos maior e menor: DóM, Dóm, Dó#M, Dó#m, RéM, Rém, etc.
Ao longo da História da música, houve vários e controversos métodos de afinação.
Devido à incompatibilidade de certos intervalos dentro de uma escala, a afinação de um instrumento de tecla era uma espécie de compromisso: numa dada afinação podíamos ter certos intervalos «temperados», mas outros não. Isto significava que, conforme o método de afinação, as peças soavam de maneira diferente e tambérm que havia certas tonalidades, como Dó#M, que eram proibidas – não se compunha música porque não era suportável.
Ora nos finais do séc. XVII surgiu uma novo conceito de afinação, na qual era possível tocar música em qualquer tonalidade, e Bach como resposta a isto, propôs-se a compor um conjunto de partituras em todas as tonalidades, publicando o Livro I em 1722.
São obras de enorme profundidade espiritual e com grandes dificuldades: de analisar, de tocar, e requerem um esforço redobrado por parte do ouvinte. Mas acreditem, as recompensas são indizíveis.
Este homem era uma génio sem paralelo.

Johann Sebastian Bach
por Elias Haussmann, 1748

Os méritos desta obra são de tal ordem avassaladores que um dos mais notáveis músicos do séc. XIX, Hans von Bülow, a apelidou de «O Velho Testamento da Música», sendo a integral das sonatas de Beethoven «O Novo Testamento».
Aposto que não houve nenhum grande compositor ou intérprete desde os meados do séc. XVIII que não tivesse estudado seriamente esta obra e dela retirado boa parte da sua formação. Isto inclui muito nomes sonantes: Mozart, Haydn, Beethoven, Liszt, Chopin, etc.
Como diria o pianista Mário Laginha «Se Deus existe, meteu ali o dedo, de certeza».

Retomando o concerto... foi óptimo.
A pianista canadiana tem uma articulação quase imaculada e faz muito pouco uso do pedal, o que torna a sonoridade muito mais clara e estaladiça.
Há momentos para todos os gostos: líricos como o primeiro e bastante conhecido Prelúdio em DóM (que aliás deu origem à famosa «Ave Maria» de Gounod), divertidos como o Prelúdio em Lá bemol M e também verdadeiras catedrais sonoras como a Fuga em Dó#m que, não sei bem porquê, me faz lembrar certos poemas mais maciços do Miguel Torga.

Também queria ter falado de outros concertos que assisti nos últimos tempos na Casa da Música, mas não tenho tempo.
Devia principalmente falar de um jovem pianista russo, o Alexei Volodin, que tocou a Sonata Op.111 de Beethoven com grande maturidade e que deu uma interpretação de tal maneira bombástica à Sonata n.º7 de Prokofiev que o piano tremeu que nem varas verdes e a mim até me caíram os «donos do Milou» ao chão. (desculpem o eufemismo de mau gosto, lol)
Acreditem, aquilo é extremamente difícil e ele domou o piano como poucos.

3 Comments:

At 6:44 da tarde, Blogger Tzipporah said...

Isto é que é cultura...deves ter uma agenda sempre muito preenchida...bem eu devo ter um problema de gestão de tempo, pois não consigo fazer quase nada do que gostaria.

 
At 10:17 da tarde, Blogger TF said...

Não a tenho tão preenchida como gostaria porque organizo muito mal o meu tempo. Só de vez em quando é que tenho um fim-de-semana destes.
Estas actividades que vou conseguindo fazer é graças ao prejuízo de outra: o estudo. lol
:P

 
At 4:52 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Gostei particularmente do título deste "Post" e do seu conteúdo, obviamente. É que de facto é no "tempero" que reside o equilibrio de tudo na Vida.

 

Enviar um comentário

<< Home