sexta-feira, agosto 26, 2005

Estória para um Quadro

«Dama com Chapéu e Cachecol de Plumas»
de Gustav Klimt, 1909

Vi-te.
Vi-te por entre aquela bruma esquecida, a que seguia naquela noite gélida - desprendidamente e sem sentido. Caminhava apenas, solto, sem pensamento, guiado por ela, sob aquele luar ciano que me entorpecia os sentidos. Deambulava como um espectro pelas ruas invernosas de Viena.
De súbito, encontrei-me na Michaelerplatz, bem no seio da agitação elegante dos casais e do vaivém febril dos fiacres. Atravessei precipitadamente as arcadas do Hofburg para fugir dali; um pequeno banco vermelho, escondido e com as ripas de madeira já cansadas, deu-me asilo, mesmo à entrada do Volksgarten.
Foi então que te vi.
Vi-te.
Surgiste fora de tempo, o teu andar mostrava-o: os passos tranquilos e seguros, com uma leveza inexplicável, deslocados da cidade que nos rodeava, um alvoroço de cores e movimento.
Estavas toda de preto, com um casaco de fazenda comprido, esbelto, punhos de pele de um branco luminoso; uma abundante gola plumada velava-te inicialmente os lábios cheios e ardentes. Por detrás dela, moravas resguardada, a tua face encimada por um volumoso chapéu adornado com uma faixa lápis-lazuli.
A majestade da tua figura não é passível de ser descrita. Não sei bem o que havia de especial em ti. Se a tua pele de pêssego, se o teu cabelo cor de fogo, se o verde marinho dos teus olhos, semi-cerrados, felinos, irradiando uma superioridade honesta e perturbante. Não sei. Eras insondável.
Fitei-te intensamente, imerso no desejo de te abraçar e de te ofertar um beijo arrebatado. Retribuiste-me o olhar, mas não sei se o conseguiste ler profundamente.
Olhaste-me somente por um instante: uma imagem que ficou pintada na minha memória com o rigor de uma fotografia. Ainda hoje a preservo.
Vi-te a ires embora placidamente, aparentemente não ferida pela nossa descoberta, a tua presença ao mesmo tempo negra e brilhante a dissolver-se aos poucos na penumbra daquele pequeno bosque.
Não corri atrás de ti, resignei-me à minha cobardia e fiquei petrificado naquelas velhas tábuas, sonhando de imediato contigo, cultivando logo ali a saudade futura da tua visão.
Apaziguei-me e as horas fluíram rapidamente como num regato primaveril.
Continuei sereno, num estado etéreo, esperando que o dia nascesse e que a minha divagação nocturna findasse. Já não me recordo se Helios chegou a despontar no céu, lembro-me apenas de que fui testemunha da tua aparição, de que Te Vi.

1 Comments:

At 11:18 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Eu não vi, só sei que gostei muito do que li e senti...
Obrigada por me aqueceres a alma
UP

 

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