segunda-feira, agosto 22, 2005

Cinefilia

Afinal, não passou outro mês até que cá viesse fazer uma nova incursão.
Desta vez, vou falar de cinema, isto porque nesta última semana vi uma quantidade anormal de filmes. E como neste mês oblongo, pouco mais se passa na minha vida, decidi escrever um bocado sobre as películas que andei a ver.
Aqui vai então a lista:

Charlie And The Chocolate Factory” (Charlie e a Fábrica de Chocolate)

Ora aqui está um filme que eu não estava apostado em ir ver. Há uns tempos, vi o trailer e não me «puxou» muito. Apesar de apreciar bastante os filmes do Tim Burton (os dois "Batman", "Marte Ataca", "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça", etc.), a verdade é que este tema achocolatado não me parecia muito interessante. E mesmo gostando das actuações do Johnny Depp, vê-lo com todo aquele pó de arroz, batom e rímel não me caiu muito bem na retina.
Depois de ver uma pequena reportagem na televisão, mudei de ideias, fui vê-lo e não estou nada arrependido.
Apesar de, à primeira vista, parecer que o público-alvo (o dito target) é infantil, isso não é bem verdade, visto que há lá piadas que um infante não compreenderia.
Por outro lado, os diálogos e o próprio enredo são muito simples, cândidos, presos a alegrias bastante singelas, numa palavra, muito infantis.
(Mas não é a simplicidade tão difícil de alcançar? Não me estou a referir a uma visão primária, sem refinamento. Não é pois a simplicidade o auge do refinamento? Bem, vou parar por aqui…isto dava outro post.)
O realizador aproveita também a oportunidade para criticar e bem as crianças de hoje em dia (em grande parte fruto da educação dada pelos pais, vinque-se): o egoísmo, a ambição desmedida, a violência dos jogos de computadores, etc. No fim do dia, quem vence é a família «tradicional», o culto da humanidade, do seu calor sentimental.
Concluindo, vale a pena uma ida às salas do cinema para quem quiser revisitar os nossos verdes anos e também para quem for fã do Tim Burton, claro. Não vai sair desiludido. Mesmo com um tom muito merry (banhos de cor, canções à la Broadway, etc.), a paixão imortal do realizador pelo gótico e pelo macabro estão lá, basta procurar…o casebre desengonçado da família, a arquitectura reminiscente de Gotham City, a música do Danny Elfman, o inverno sombrio e gelado, a mera presença do Christopher Lee, etc.
Burton, Depp, Elfman, Hitchcock, Kubrick e Beatles…tudo metido num saco.
Para quem quiser saber mais, recomendo a leitura da crítica do Público.


The Legend of Suriyothai” (A Lenda de Suriyothai)

Apesar de ter sido produzido por um «Big Fish» de Hollywood (Francis Ford Coppola), penso que este filme não passou no circuito comercial português, não me lembro bem.
É um filme de época: passa-se no séc. XVI, na região que é hoje a Tailândia e é sobre a vida da Rainha Sri Suriyothai.
Retrata a vida na corte da capital, Ayutthaya, os interesses, as hierarquias, os conflitos militares, os modos de vida e costumes sociais, e por fim, o sacrifício que a rainha fez, partindo para a guerra contra o Reino de Burma, tendo morrido em batalha ao proteger o seu marido de uma investida do inimigo.
Aprendi muito sobre a história e cultura daquela região: deu-me mais vontade de a visitar um dia. A fotografia é bastante cuidada, e nota-se que não se olhou a despesas: trajes, adereços, cenários, etc. Isto só foi possível porque a família real meteu o dedo: o financiamento veio da Somdej Phra Nangchao Sirikit Phra Boromarajininat, ou seja, a Raínha Sirikit da Tailândia, (LOL) e o filme foi realizado pelo Príncipe Chatri Chalerm Yukol.
A única coisa que me estragou um pouco a imagem da produção foi uma cena em que aparecem uns mercenários portugueses que raptam a futura rainha e dizem qualquer coisa como: «Qui é qui essa moça fais áqui?» Mercenários portugueses do séc. XVI a falar «brasileiro»! Não encontraram um actor português?! Nâo acredito!
Notei também outra coisa: todo o andamento do filme é bastante pacífico, de um certo ponto de vista, iluminado. Faz lembrar outra película interessante: o “Pequeno Buda” do B. Bertolucci. E também um excelente livro: “Siddhartha” de H. Hesse.
Gosto cada vez mais das culturas budistas.


The Godfather: Part II” (O Padrinho II)

Vou começar por referir que este filme está em n.º4 na lista dos melhores filmes do IMDb, com quase 80000 (!) votos.
Pois bem, eu gostei do filme, mas…o quarto melhor? Tenham paciência.
É o problema dos mitos: não conseguem ser analisados friamente, são vacas sagradas. Muita gente ainda hoje se interroga: «O Casablanca é mesmo bom? E o Citizen Kane?». Nestes dois últimos casos, acho que sim, mas por razões e méritos distintos.
O argumento de ”O Padrinho” é bastante conhecido, por isso não vale a pena falar muito sobre isso, as máfias ítalo-americanas que se desenvolveram sobretudo na primeira metade do séc. XX. Neste caso, a saga da família Corleone.
Apesar de ter gostado mais de «O Padrinho I» (com o insubstituível Marlon Brando), esta sequela está à mesma altura, é uma produção de alto nível. (Mérito seja feito ao F. F. Coppola) Só a lista de actores é quase garantia de uma obra de qualidade: Al Pacino, Robert DeNiro, Robert Duvall, Diane Keton, etc.
O retrato sociológico é muito bem conseguido, mas não supera o original. Agora só quero ver o terceiro e a trilogia fica completa.


Impromptu” (Paixões Secretas de uma Mulher)

Eis a razão pela qual me dei ao trabalho de escrever todos os títulos em português. Reparem no megalómano ridículo da tradução. Até dói.
«Impromptu» quer dizer improviso, e refere-se a uma peça famosa de Chopin, a Fantaisie-Impromptu.
Senhores tradutores, eu bem sei que este título não é fácil de «trazer» para português, mas «Paixões Secretas de uma Mulher» é das piores coisas de que se podiam ter lembrado. Quem lê o título e não sabe do que se trata, deve pensar uma de duas coisas: ou é uma light comedy romântica hiper-lamechas ou um filme pornográfico. Enfim…
Noutro dia, estava a vasculhar o IMDb quando dei de caras com este filme sobre Chopin e a sua relação com a escritora George Sand.
O Hugh Grant retrata Chopin fielmente, um ser extremamente sensível, delicado, sofisticado, frágil, contrastando o mais possível com a G. Sand de Judy Davis (uma óptima interpretação).
A escandalosa George Sand era de facto uma mulher extraordinária. Num século ainda imerso numa moral burguesa decadente, ela lutou contra o regime instalado não só com os seus romances mas também com os seus actos: vestia-se de homem, fumava, repudiava os constrangimentos que a sociedade lhe impunha como mulher e como membro da aristocracia, uma classe que ela sempre desdenhou, tendo porém nela nascido e casado.
Deve ter sido algo de muito especial ter vivido naquele meio, a Paris do início do séc. XIX, as convulsões sociais, políticas, artísticas; conviver com Chopin, Liszt, Sand, Dumas, Delacroix, Hugo, Bellini, etc.
Tomar o pulso ao romantismo vigoroso e não adoentado.


Fantastic Four” (Quarteto Fantástico)

Sobre este, não há muito a dizer. Um típico box office hit americano. É uma adaptação da conhecida banda desenhada. Quando era miúdo, gostava muito de ver a série na televisão, mas nunca li os livros. Vale a pena apenas pelo entretenimento, pelo fogo de artifício.


Charles II: The Power & The Passion” (Carlos II de Inglaterra - O Poder e a Paixão)

Embora esta obra da BBC já tivesse sido passada na RTP (originalmente uma mini-série), foi bom revê-la. Sobretudo porque é um período da história inglesa pelo qual me interesso muito, desde Henrique VIII, passando por Maria I, as intrigas entre católicos e protestantes, Isabel I, a subida dos Stuart ao trono, a morte de Carlos I, o governo de Cromwell, a Restauração, a Revolução Gloriosa, etc. Todo este período é fascinante.
O filme trata de todas as artimanhas que se desenhavam à volta do poder na época de Carlos II, os interesses dos parlamentares, das amantes e dos ministros. No meio deste lodo, surge uma figura estóica sempre pronta a apoiar o rei, Catarina de Bragança, rainha de Inglaterra, filha do nosso D. João IV. Os ingleses devem-lhe, entre outras coisas, a verdadeira introdução do chá naquele país. Como a rainha adorava chá, tornou-se moda.


De Battre mon Coeur s'est Arrêté” (De Tanto Bater o Meu Coração Parou)

Aqui trata-se de algo muito especial, um tema que me diz bastante, o piano.
Este filme francês fala da vida de Tom Seyr, um rapaz parisiense nos seus trinta e que tem como emprego a especulação imobiliária. É patente não só a secura do negócio mas também a sordidez dos seus métodos, que passam por tacos de basebol e pela infestação de prédios de interesse com ratos.
Tudo vai nas ondas da rotina até ao dia em que ele revê um velho conhecido, agente de músicos (que o tinha sido para a sua mãe, pianista profissional). As memórias que estavam debaixo do tapete surgem: a música materna, o seu próprio gosto pelo piano, etc.
Desde a morte da sua mãe, ele negligenciou o piano, e aquele reencontro semeou-lhe uma nova ideia: voltar ao piano. É aqui que ele regressa ao estudo e com a ajuda de uma jovem pianista chinesa, vai preparar-se para uma audição com o dito agente musical.
À volta deste cerne, há um novo amor, há os problemas do seu pai, há o dilema entre o cinzentismo seguro do seu emprego e o abraçar profundo da arte.
Tudo isto filmado com um realismo muito pungente, que se entranha, que nos «perturba», que mexe connosco. O mesmo acontece com a interpretação extraordinária de Romain Duris (Tom) e o seu nervosismo à flor da pele.
Mesmo a quem não toca piano, recomendo vivamente este filme. Decerto não vão sair do cinema indiferentes.


Catch Me If You Can” (Apanha-me Se Puderes)

E para terminar, uma «Spielbergice».
Um quase «documentário» (há muita fantasia) da vida de Frank Abagnale Jr.(Leonardo DiCaprio), um rapaz que fugiu de casa aos 16 após o divórcio dos pais e que, para sobreviver, começou a falsificar cheques, algo que se tornou pouco depois, numa profissão.
Ao longo dos seguintes anos, eles fez-se passar por: co-piloto comercial, médico (foi chefe de urgências pediátricas num hospital), professor (leccionou numa Universidade), advogado (pertenceu ao gabinete do Procurador-geral da Louisiana).
Até ser apanhado aos 21 anos, ele roubou cerca de 3 milhões de dólares. Durante estes anos, foi sempre perseguido pelo agente do FBI, Carl Hanratty (Tom Hanks), que finalmente o prendeu em França.
O mais incrível desta história é que é verídica. Este homem foi condenado a 12 anos de prisão. Após cumprir 5 como recluso, fez um acordo com FBI, ajudando-os a combater a fraude fiscal, visto ele ser um especialista na matéria.
Quando acabou este serviço, fundou a sua própria empresa de consultadoria. Hoje é milionário, tendo já criado cheques «à prova de fraude» para bancos, e elaborado sistemas comerciais mais seguros para várias multi-nacionais.
A interpretação do L. DiCaprio não é má, mas quanto a mim é superada pela do T.Hanks e também pelo óptimo desempenho do Christopher Walken (F. Abagnale Sr.).

Pois é, a veia cinéfila está ao rubro. :)

5 Comments:

At 9:37 da tarde, Blogger Tzipporah said...

Cinefilia ao rubro de facto!
A maioria ou não vi, ou nem sequer tinha ouvido falar, mas concordo totalmente com a opinião de "Catch Me If You Can", vê-se mas não se aprende grande coisa. Ando a tentar alugar o Padrinho II mas nunca o vi no videoclube...é uma miséria, visto pareceres um entendido no assunto, fico feliz por ter visto o melhor...ao menos de consolação...

 
At 9:56 da tarde, Blogger TF said...

De facto, exagerei um pouco neste post. Enfim, deu-me para a «verborreia». lol
Olha que eu não sou grande entendido no assunto, por isso, não te fies totalmente no que eu escrevi. Sou apenas um espectador interessado, nada mais.
Se vires "O Padrinho II" algures, «rapina-o» logo. Vale bem a pena. :)

 
At 5:46 da tarde, Blogger Tzipporah said...

:) quem sabe ainda arranjo no mercado negro...este verão fiquei estupefacta com o negócio que se faz nas feiras ao venderem DVD's piratas com muito boa qualidade...não que eu seja muito adepta, mas a "cultura", seja qual for, é extremamente cara...

 
At 2:15 da tarde, Blogger TF said...

Tenho um amigo que comprou um DVD assim e depois a meio do filme aparecia uma pessoa de pé a passar no meio do ecrã. lol
Ainda não comprei nenhum no bas-fond, mas depois de ter ouvido esta história não estou muito tentado. lol :P

 
At 6:34 da tarde, Blogger Tzipporah said...

humm...realmente não é convidativo se assim for...mas parece-me que isso não acontece nos que a minha prima comprou. De qualquer forma acho que não é muito correcto, mas acaba por ser hipocrisia da minha parte já que acaba por ser a mesma lógica de copiar CDs dos amigos...

 

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