terça-feira, julho 12, 2005

Fim do Jejum

Acabaram os exames!!! Deo gratias.
Como de costume, nesta época de exames, não tenho tempo nem «cabeça» para escrever uma coisa de jeito.
Até que enfim que posso voltar a fazer um post.
Ao longo deste mês, lembrei-me de vários assuntos para escrever, mas nesta altura do campeonato já não me recordo de metade.
Vou começar pelo meu aniversário. Era para ter passado o dia a estudar, mas fui almoçar com o puredo (Obrigado, pessoal!) e eles ofereceram-me uma coisa que eu contava de comprar com o dinheiro que recebesse nos anos: os DVDs da trilogia “StarWars”. Com isto fui desviado do «bom» caminho que a minha consciência apontava e nessa tarde fiquei a ver as opções especiais do pack.
Fiquei a saber uma série de factos que desconhecia: inicialmente o herói da história chamava-se Luke Skykiller, o Han Solo era para ser um extraterrestre esverdeado, este papel podia ter sido entregue ao Kurt Russell em vez de ao Harrison Ford, o Chewbacca foi inspirado no cão do George Lucas, o R2-D2 foi representado por um anão, todo (!) o set em que o Yoda aparece foi construído cerca de um metro acima do chão para que o Frank Oz o pudesse manobrar, etc.

Entretanto, já vi todos filmes da trilogia «velhinha». O Lucas não só restaurou o som e a imagem como também introduziu novas cenas e alterou algumas antigas, chegando mesmo a reescrever diálogos e substituir músicas.
Se por um lado, algumas mudanças são muito bem-vindas (efeitos especiais, etc.), outras chocam-me um pouco porque ele está a modificar filmes clássicos.
Como é que iríamos reagir se o Orson Welles fosse vivo e «lhe desse na tola» alterar o “Citizen Kane”?
É óbvio que não estou a comparar os dois filmes, longe de mim pensar em misturar as águas. Uma coisa é um filme de diversão e fantasia que constitui parte do nosso imaginário infantil e outra é uma obra-prima cinematográfica.
Apesar das alterações, foi óptimo rever certas imagens que já há uns tempos não visitavam a minha retina.

Ofereceram-me também outro DVD: “Lost in Translation” da Sofia Coppola.
Um filme que eu adoro, que considero muito muito bom.
Bem sei que é uma película que não reúne consensos: uns acham-na genial e outros banal. Ainda bem que assim é, é bom que haja vozes discordantes. Convém lembrar que há grandes realizadores cuja obra suscita ainda hoje ódios e paixões, e.g., Bergman, Pasolini, Kurosawa, etc.
Este filme da S.Coppola é, para mim, tudo menos banal. Desde a originalidade da história de amor, cujos contornos dúbios nos mantêm numa tensão crescente ao longo do filme e cuja resolução tem um gosto agridoce, até à crítica mordaz que é feita à sociedade japonesa, algo que a realizadora alcança apenas com o «silêncio» das imagens, com um «cinema puro» (ou depurado). E tanto o humor subliminar da mis-en-scène como o underacting dos principais actores (Scarlett Johansson e Bill Murray) - dois vectores fundamentais do filme – são muito bem conseguidos.

Recebi também um livro que a JB me trouxe de Cambridge, o «mais conhecido de que o mexilhão» “The DaVinci Code” de Dan Brown. Em princípio, nunca o iria comprar, não sei se por causa do meu anti-americanismo ou do meu espírito anti-fenómenos de massas. (Enfim, manias minhas). Agora que o tenho, vou lê-lo e com interesse. O problema é que em cima da minha mesa-de-cabeceira tenho um «Everest» de livros, quase todos lidos até a meio. Vejam só a lista:

“Diários (Vol. I a VIII)” de Miguel Torga
“Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez
“Harry Potter and the Philosopher’s Stone” de J.K.Rowling
“Beethoven e Viena” de Marc Vignal
“A Bioética” de Jean Bernard
“Micro-Cosmos” de Lynn Margulis e Dorian Sagan
“Deus, um Itinerário” de Régis Debray

E mais: ontem fui à «Faneca» e arranjei mais uns discos, para juntar aos que tenho por ouvir. :P
Comprei: “O Rapto do Serralho” de Mozart, uma ópera cheia de fogo-de-artifício vocal e humor anti-turco (hoje, o politicamente correcto seria dizer anti-otomano, mas não estou para isso); um pack com duas obras muito interessantes, as Vésperas venezianas de Cavalli (não o estilista…lol) e as famosas ”Vésperas de 1610” de Monteverdi (uma lacuna na minha discoteca); e por fim, adquiri a minha terceira versão do “Requiem” de Mozart, dirigida pelo Leonard Bernstein (o verdadeiro sinal de que tenho uma «panca» por esta obra).
Comprei-a não só por ser uma orquestração diferente da maioria das gravações, mas sobretudo porque tem um “Dies Irae” de pôr literalmente os cabelos em pé: tem uma força brutal, quase se sente como real a fúria do coro, tal é pujança sonora. No fundo, o que quero dizer é que quase sentimos que eles estão prontos a dar um «enxerto de porrada» a qualquer um que se atravesse no seu caminho. O maestro pô-los a «gritar» como uns possessos e a orquestra quase a colapsar. Ultimamente, como passei muito tempo em casa, nos intervalos do estudo, aproveitei para pôr a minha técnica pianistica em dia. E estou contente por ter melhorado, visto que desde que saí do conservatório ela congelou.
Tenho tocado umas obras de Rameau, um compositor que descobri recentemente e que rapidamente se tornou num dos meus favoritos. Quero ver se acabo uma peça dele que o Sokolov tocou na «Chez Musique».
O caso de Rameau é curioso: um homem que viveu metade da sua vida quase como um desconhecido a tocar órgão numa catedral qualquer em França e quando chegou à meia-idade desatou a compor óperas e foi um sucesso.
A uns, nesta altura, dá-lhes para comprar um Porsche, andar com raparigas de 20 anos e sabe-se lá mais o quê, e a outros dá-lhes para escrever óperas. Bem…de qualquer das maneiras no séc. XVIII, não havia «coches desportivos». Lol
E agora acabo com um poema que li no outro dia e que, apesar do seu extremismo, achei sensacional. Sobretudo porque me fez lembrar, tal e qual, um famoso quadro de Ingres.
Mesmo com uma escrita muito vincada politicamente, acho quase todos reconhecem/apreciam o valor da poesia de Ary dos Santos, um homem que podia «carregar» um texto de inúmeras maneiras, com uma pena que podia ir do mais acutilante sarcasmo à mais profunda sensibilidade.
Aqui vai um óptimo exemplo do primeiro. Espero que se divirtam tanto a lê-lo como eu.


O Burguês

A gravata de fibra como corda
amarrada à camisa mal suada
um estômago senil que só engorda
arrotando riqueza acumulada.

Uma espécie de polvo com açorda
de comida cem vezes mastigada
de cadeira de braços baixa e gorda
de cómoda com perna torneada.

Um baú de tolice. Uma chatice
com sorriso passado a purpurina
e olhos de pargo olhando de revés.

Para dizer quem é basta o que disse
é uma besta humana que rumina
é um filho da puta é um burguês.


José Carlos Ary dos Santos, in “O Sangue das Palavras”, 1978


Louis-François Bertin
(«o Buda da burguesia», nas palavras de Manet)
por Jean-Auguste-Dominique Ingres, 1832
(reparem na extraordinária qualidade da pintura, é quase fotográfica)


6 Comments:

At 3:30 da tarde, Blogger Sara said...

Ora bem, isto merece comentário por partes, portanto, here we go!

EXAMES SUCK!!!! (isto é a primeira parte!)

Depois, ainda bem que gostaste do Star Wars, não te esqueças da cópia para a je, okay? ;) Isso do Yoda por acaso já sabia, já vi diversos documentários sobre isso, e o todo, acho que foi só o cenário da 'casa' dele, mas já não tenho a certeza...

Se quiseres os 'clássicos não alterados', ainda arranjas em VHS, acho eu... Quanto mais não seja no E-Bay...

Quanto ao 'Lost In Translation', já sabes o que penso... Mas só pela Scarlett Johansson, já vale a pena o esforço... :p

Quanto ao 'The Da Vinci Code' é um bom livro, merecedor de todo o hype que o rodeia, espero é que o filme não desiluda!

*ahem* (não é Faneca, mas sim Fanecas)

Por incrivel que pareça, eu até gosto bastante de Ary dos Santos, mesmo não conhecendo muito, mas o que conheço, gosto bastante!

 
At 3:33 da tarde, Blogger Sara said...

GAJOH!!! Altera lá a link para o meu blog!! hmmpft!!

 
At 4:12 da tarde, Blogger TF said...

Não sabia que ia haver um filme baseado no «Código DaVinci». Fui agora investigar isso no IMDB: o cast promete, provavelmente vai ser um êxito.
E já está alterado o link. :)

 
At 7:24 da tarde, Blogger Sara said...

realmente o cast promete, agora se o filme fará jus ao livro, isso é que é algo a ponderar...

thank you for updating the link! ;)

 
At 11:49 da tarde, Blogger nakamura_michiyo said...

sim, exames suck big, big time >_<
Muitas dessas coisas sobre o Star Wars não sabia... Skykiller é um nome horrendo lol e o meu Han Solo como um extraterrestre esverdeado?? No freaking way!! o_O
Eu gostei mesmo muito do Lost in Translation... ainda te estou a dever um DVD, mas quanto to der, dou-te logo 2 e depois orientas uma cópia do filme, ò sócio ;)
O Código Da Vinci é um livro porreiraço, lê-se num instante, mas quanto ao filme não estou muito entusiasmada. Acho que não vai ter tanta piada como o livro, e além disso não estou nada a ver o Tom Hanks a fazer o papel de um professor universitário quarentão e atraente e atlético (sublinhando estas duas ultimas características da personagem). O Tom Hanks é muito bom actor e isso tudo, mas atraente e atlético... não me parece :P E isso devia ser importante, uma vez que nos livros o Robert Langdon engata sempre as gajas, estilo James Bond da História da Arte ou coisa parecida lolol ********

 
At 12:56 da manhã, Blogger Sara said...

concordo plenamente com a Nakamura no que diz respeito ao Tom Hanks não ser o candidato preferencial a Robert Langdon...

vamos lá ver o que sai dali, não estou assim muito confiante...

 

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