terça-feira, junho 14, 2005

Salada quinzenal de Palavras

Acabou o exílio, eis «O Regresso de TF à Pátria». :P
Pois é, tenho de me desculpar por ter estado tanto tempo ausente do blog.
Infelizmente, estive enclausurado na última semana a estudar para o meu exame de Fisiologia. Fi-lo ontem, penso que correu bem. Convém esclarecer que aquilo não é uma cadeira, é um transatlântico.
Findado o martírio cerebral, posso dedicar-me a escrever um pouco. Até que enfim.
Tenho tanto que contar, que há coisas que vão ficar pelo caminho.
Queria ter escrito uma «crítica» ao concerto do Andreas Scholl que fui ver à nossa MusikHaus, mas não tive tempo.
Ele cantou obras de Händel, Haydn e Mozart acompanhado ao cravo e ao pianoforte por Markus Märkl.

Para meu desalento, enganei-me na hora do concerto e cheguei uns minutos atrasado. Após a primeira peça, deixaram-me entrar, corri para o meu lugar e foi aí que uma coisa extraordinária aconteceu: mesmo sentada ao meu lado estava a minha irmã. Fiquei todo contente, já não via a S há uns tempos.
Encontrarmo-nos no mesmo concerto já seria uma coincidência, mas na mesma fila e em lugares contíguos é obra!
Como se isto não bastasse, o M, um amigo da S que também lá estava conhecia vários professores meus. E há mais… no intervalo, não me lembro a que propósito, estava a falar com a S sobre uma colega violoncelista que tive no Conservatório e que não via sei lá há quanto tempo. E não é que a fui encontrar no bar, uns passos depois? Incrível! Foi porreiro, estivemos a falar sobre os velhos tempos no Conservatório (ela ainda lá está) e também sobre música.
Considero-me um ser bastante racional, mas estes episódios obscuros são perturbadores. Não se preocupem, não vou começar a dissertar sobre o Destino ou sobre as energias cósmicas que fluem invisivelmente no universo, manipulando o nosso quotidiano. ;)
O concerto foi muito bom, a voz do A. Scholl é simplesmente angelical. Apesar de haver actualmente contra-tenores muitos bons, a voz dele é a que mais sobressai. Um campeão de vendas merecido.
Uma nota curiosa: eu pensei que ele era muito mais baixo, mas tem à vontade 1,90m. Não levem a mal, mas quando o vi (porque estava nas primeiras filas) não pude deixar de pensar numa famosa caricatura do século XVIII (atribuída a Vanderbank) que retrata dois castrati a cantar numa ópera de Händel.

Para quem não sabe, houve uma época em que as mulheres não podiam cantar nas igrejas. Talvez por causa disso, surgiu um fenómeno que se tornou praticamente uma moda a partir dos finais do século XVII: a castração de «meninos de coro». Imaginem a barbárie a que chega o espírito humano.
Toda a gente sabe que até à puberdade, ambos os sexos têm vozes semelhantes, vozes brancas. Só a partir da puberdade é que surge a diferenciação: as cordas vocais masculinas engrossam substancialmente e podemos distinguir então três categorias básicas de voz nos homens: baixo, barítono e tenor.
No entanto, se alguém for «privado das suas gónadas» (que tal este eufemismo?) antes da entrada na adolescência, há grande probabilidade de manter da sua voz de «soprano». Isto acontece porque, sem testículos, os níveis hormonais caem, tendo como consequência uma série de fenómenos anormais: as cordas vocais não se desenvolvem tanto, os indivíduos não têm barba e o seu corpo fica desproporcionado devido ao crescimento exagerado dos membros. Daí o facto de serem ridicularizados como gigantones na gravura.
Os que conseguiam em adultos manter as suas vozes e que demonstravam capacidades excepcionais (agilidade, força, agudos brilhantes) tornavam-se verdadeiras pop-stars. Há inúmeros exemplos do século XVIII: os italianos Senesino (na imagem acima, à esquerda) e o célebre Farinelli, cuja fama e fortuna atingiram proporções nunca antes vistas - viveu e morreu como um aristocrata.
Há um filme («Farinelli, il castrato») que retrata espectacularmente a sua vida bem como a sociedade da Europa oitocentista com o seu fausto ao mesmo tempo opulento e decadente.
É de referir que os castrati tinham fama de óptimos amantes e de enlouquecer as mulheres não só com a sua beleza andrógina, mas também com outros atributos... digamos que a sua voz não era o único instrumento cuja performance é mítica. :p

Farinelli (1705-1782)

O último castrato de que há memória morreu em 1922. Era o director do coro da Capela Sistina, Alessandro Moreschi. Há uma gravação dele, já com uma voz frágil e envelhecida, mas que nos dá uma ideia da textura cristalina que a voz de um castrato tem e não deixa de ter grande interesse por ser um testemunho de uma época desaparecida.
Imagine-se o que seria haver uma gravação de Bach a tocar órgão ou Liszt a tocar piano. Seria algo do outro mundo, mas a verdade é que o facto de não haver um registo audível contribui grandemente para os seus mitos como executantes transcendentes.
Felizmente, hoje já não há castrati, mas há um reportório fenomenal para essa voz. O que fazer. então?
Durante muito tempo, as sopranos preencheram os seus lugares nos teatros e nas gravações. Agora, há a têndencia crescente para se usar contra-tenores, ou seja, homens que mesmo com a mudança no aparelho vocal, conseguem com a sua voz de falsete «imitar» a dos castrati. Grande parte da população masculina tem voz de falsete, mas poucos são os que a conseguem dominar eficazmente e elevá-la a um grau considerável de perfeição. Um exemplo de voz de contra-tenor é o vocalista da Ala dos Namorados ou o dos Maroon5 que também costuma usar o falsete.
Bem… retomando o concerto.
Nos encores, o Andreas Scholl cantou a famosa ária «Ombra mai fù» de Händel e também uma peça a solo de um compositor medieval alemão que não conhecia. Esta última obra, foi um momento de pôr os cabelos em pé, tal era a beleza da voz.
Por causa disto, à saída, descobri que o M gostava de música medieval e também de Jazz. Começámos a conversar e passado um bocado eu estava a tagarelar sobre música tipo nerd. Tive de me controlar senão começava a ficar chato... que é o que acontece quando me destraio.

[Hum… o que mais se passou nesta quinzena? Ah, já sei!]
Passei um óptimo dia no Parque da Cidade, o último dia de aulas. :) «Piquenicámos», jogámos voleibol, futebol (sim, eu!), fizemos palhaçadas, rimo-nos e desopilámos amplamente o fígado. Por causa de ter passado umas horas a correr de um lado para o outro, nos dois dias seguintes, nem me podia mexer, parecia um velhinho.

Mais coisas…
Já coloquei nos links o site do JT, um amigo cá da casa e excelente fotógrafo. Aconselho-vos a dar lá um salto, vale muito a pena.

Ontem à tarde, depois do exame, a T, a Nakamura e o Cit vieram cá para casa. Toquei um bocado piano. Por incrível que pareça, tinham-me ouvido a tocar cravo antes, mas nunca piano. Saíram-me umas fífias, mas espero que tenham gostado.
Tínhamos combinado ver um filme, mas não qual. Estranhamente (ou não), optámos por ver «A Bela e o Monstro», que é um filme de que todos (ou quase) gostamos e que marcou a nossa infância.
Foi óptimo recordar as melodias espectaculares da Disney e partilhar isso com alguém da nossa geração.
Ao ver a biblioteca megalómana do castelo do Monstro, vieram-me logo à memória as bibliotecas barrocas que já visitei. Uma sensação engraçada. Aquela é uma mistura entre a alvura luminosa da Biblioteca de Mafra e o esmagador burilado estilístico da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra ou da sumptuosa Prunksaal em Viena.

Biblioteca do Convento de Mafra

Prunksaal da Biblioteca Nacional Austríaca

E porque nestes últimos dias perdemos três personalidades de grande relevo nacional, Vasco Gonçalves, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade…
Aqui fica uma pequena homenagem, trazendo à memória a realidade de que, ao contrário daquelas bibliotecas rococós, a simplicidade tem uma grandeza esmagadora.


Desenho de Álvaro Cunhal, 1954


As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade