quinta-feira, maio 26, 2005

Sokolov

Mais duas noites na Casa da Música, mais umas memórias inesquecíveis.
Anteontem, fui ouvir um concerto da Deutsche Kammerphilharmonie Bremen (tradução livre: orquestra de câmara alemã de Bremen).

Começaram com a Sinfonia n.º1 de Carl Philipp Emanuel Bach, um dos filhos músicos de Bach (pai).
Quando se fala em Bach, referimo-nos sempre a Johann Sebastian Bach (em português seria, João Sebastião Ribeiro…lol). Na altura, para fazer a distinção, falava-se no Bach de Leipzig (J.S.Bach), no Bach de Hamburgo (C.P.E.Bach), no Bach de Londres (J.Christian Bach), etc.
A família Bach foi, ao longo dos séculos XVII e XVIII, uma das mais importantes no panorama musical alemão. Houve dezenas de músicos de elevada craveira oriundos deste clã. No entanto, devido ao brilho opulento da obra de J.S.Bach, todos os outros são ofuscados, incluindo os seus filhos. Apesar de nenhum dos seus quatro filhos que seguiram a carreira musical estar ao nível do pai, a verdade é que os seus legados têm muita qualidade e não devem ser esquecidos. É sempre difícil ser filho de grandes homens ou mulheres.
Foi muito interessante escutar a sinfonia.
Seguiu-se o «mais do que perfeito» Concerto n.º23 KV488 de Mozart, com o mítico Grigory Sokolov ao piano. Devo referir que gosto muito desta peça: é dos meus concertos para piano preferidos. Aliás, comprei há uns tempos a partitura e tenho-me entretido a aprender algumas partes. Uma vez, toquei-a para o meu pai a gravar como toque de telemóvel; modéstia à parte, até nem ficou mal. :)
Nunca tinha ouvido o Sokolov a tocar, nem ao vivo nem em CD, mas o que tenho lido sobre ele deu-me a imagem de um semi-deus. Isto porque a opinião aparentemente unânime de críticos e do público é tão simplesmente a de que «ele é maior pianista vivo».

E com estas palavras ao mesmo tempo tão singelas e tão esmagadoras, construí na minha imaginação um segundo Sviatoslav Richter: um mestre, no significado mais profundo do termo.
O segundo andamento do concerto é das experiências mais etéreas (ando a usar muito esta palavra, mas não encontro melhor) que podemos ter a ouvir música.
Se não me engano, foi o JT (um amigo do meu pai que coincidentemente encontrámos no sarau) que há uns anos quase ia tendo um acidente de automóvel, tal era estado de alienação em que ele se encontrava por estar a ouvir esta música no rádio.
O terceiro andamento foi só fogo-de-artifício, tal foi o entusiasmo que o pianista russo imprimiu à música; uma «pirotécnica» pianística. Adorei.
Na segunda parte do concerto, escutei um Rondó para violino de Mozart e a Sinfonia n.º99 de Haydn. Mais uma vez os sons do «pequeno de Salzburgo» não falharam, foi muito agradável escutá-los graças aos hábeis dedos do violinista Daniel Sepec.
Haydn não é dos meus compositores favoritos, mas as suas últimas sinfonias são obras a que não se pode ficar indiferente. Um óptimo final.
A seguir a este fim de tarde especial, fui a voar para o Botânico a fim de assistir a uma palestra do Prof. Dr. Vasco Almeida sobre o diagnóstico pré-implantatório de embriões humanos. É uma área em que gostaria um dia de trabalhar. Felizmente, cheguei mesmo tempo de ver o início.

Ele falou sobre vários aspectos: doenças passíveis de serem detectadas, problemas éticos, etc. Realçou também a vergonha que é o facto de Portugal ser o único país da U.E. que não tem qualquer legislação sobre este tema. Ou seja, hoje dependemos unicamente do bom-senso dos profissionais da área. Pelos vistos, não há nada de ilegal em ir a uma clínica de fertilização in vitro e fazer várias tentativas até obtermos um embrião com uma ou mais características do nosso agrado, sejam elas quais forem. Usem a vossa imaginação e atentem nas questões éticas que se levantam. Estamos mesmo na república das bananas.

Esboço de Leonardo Da Vinci

Ontem regressei ao «Porto’s New Hall» para ouvir o Sokolov a solo.
A primeira parte era preenchida pela Sonata D.959 de Schubert e depois do intervalo por uma série de peças de Chopin.
Bem…a partir dos primeiros compassos da sonata, confirmei a opinião com que tinha ficado no dia anterior: estava na presença de alguém capaz de iluminar o teclado como poucos. Estava diante de um génio.
Esta penúltima sonata de Schubert é já de si um monumento, não só em termos de duração (deve ser provavelmente a mais longa sonata do compositor), mas sobretudo pela sua estatura enquanto obra-prima.
Umas das críticas que se faz a Schubert é precisamente o tamanho exagerado de muitas das suas obras, principalmente as últimas sonatas e a nona sinfonia - as «divinas extensões» de que Schumann falava.
Stravinsky um dia disse mais ou menos isto: «Não há problema quando adormeço a ouvir uma peça demasiado longa de Schubert, pois quando acordo, sinto-me no paraíso.». Apoio inteiramente. (não que eu adormeça. :p)
Adoro o segundo andamento desta sonata: é uma meditação calma, sombria e a parte central até me dá arrepios, é um momento esotérico. E é suficiente ouvir as primeiras notas do último andamento para um sorriso espreitar nos meus olhos.
Foi uma interpretação assombrosa e que me emocionou bastante.
No intervalo, os meus pais ficaram na sala. Fui então ao bar onde fiquei a falar um pouco com o FP, que também veio ao concerto. Disse-lhe o que pensava sobre o que tinha ouvido e ele comentou dizendo que estava a gostar bastante, mas que sentia não estar a «apreciar» devidamente o recital, visto que a música clássica não é o seu habitat natural. No caso dele, seria mais o Jazz.
Isto é um dos problemas da dita «música clássica»: a suposta necessidade de ter um certo grau de erudição para poder fruir a música.
Talvez seja por isso que muita gente tem preconceitos em relação a esta música. Dizem que é chata, difícil de compreender, não dá gozo, etc. Provavelmente, devem pensar que quem a escuta é masoquista. Estão tão enganados.
Um dos problemas é que grande parte do público não tem nenhuma paciência para deslindar uma música. Às vezes, isso dá muito prazer, como se se tratasse de um mini-romance policial. Mas não é essencial para gozá-la, é acessório.
A maioria quer apenas músicas que «entrem» logo no ouvido, vulgo, pum-pum-pum. Não me tomem como purista, porque não o sou: gosto de muita música ligeira.
Enfim, este tema dava pano para magas. Vou acabar com a divagação.

Na segunda parte, o Sokolov tocou algumas peças de Chopin de que não sou grande apreciador (e.g., os Impromptus) e outras de que gosto muito (e.g., Fantasia-Impromptu e a Polaca-Fantasia).

Nesta última obra, ele revelou um legato doce e um controlo mágico dos pianos, um toque tipo pluma que me deixou parvo. Ele a tocar Schumann ou Brahms, deve ser fora de série. No final, fez uma demonstração de técnica (não gratuita) que me pôs literalmente boquiaberto.
Acabou tudo em êxtase.
O público aplaudiu arrebatadamente, os «Bravo!»s andavam à solta no ar. Tal foi o entusiasmo que ele deu 6!!! encores. Isto porque sempre que o tímido pianista voltava ao palco recebia uma ovação enorme, a sala toda em pé, a gritar tresloucadamente (eu incluído) por mais.
Tocou várias peças, das quais tenho de salientar duas: a melancólica Mazurka Opus 68 n.º 2 de Chopin (uma pequena grande partitura de que gosto especialmente) e para espanto meu (e com certeza geral) um andamento de uma Suite de Rameau: Les Sauvages, que é uma autêntica dança com um ritmo espectacular; ele usou uma velocidade alucinante, tendo em conta a necessidade de tocar inúmeros staccati (notas destacadas).
Genial. Por mim, tinha ficado até de madrugada a ouvir os dedos dele cantar.
No fim do recital, ainda contava de ir ao Botânico a uma conferência sobre organismos transgénicos, mas já era tarde.
De qualquer das maneiras, depois de ter passado por aquela incrível experiência celestial, pouco mais havia a acrescentar à minha anima ruborescida.

sábado, maio 21, 2005

Stars & Bites

Ontem de manhã, com pálpebras pesadas por pouco ter dormido, lá fui para o Botânico acabar o trabalho de FVC com o puredo. Apesar deste propósito não animador (pelo trabalho, claro), não estava nada maldisposto, isto porque de tarde havia uma sessão bem prometedora.

Ora nem mais, a última «prequela» da velha trilogia StarWars: o episódio III, “A Vingança dos Sith”.
Como pertenço àquele grupo de pessoas (não vou dizer geração) que cresceu com os episódios IV-VI e que a partir deles construiu uma parte importante do seu imaginário na área do fantástico, este filme tem à partida um interesse especial.
É também de acrescentar que a trilogia dos 80’s foi o meu primeiro professor de inglês. Houve até uma altura em que sabia inúmeros diálogos de cor, tal era a quantidade de vezes que via as películas.
Com esta descrição, poder-se-ia pensar que tinha grandes expectativas em relação a este «subir do pano». Mas isso não é verdade, visto que eu me forço a nunca as ter elevadas. Caso as coisas corram menos bem, a queda é menor. (sim, esta conduta é muito discutível.)
Posso dizer que gostei bastante do filme. Achei-o o melhor e mais sombrio desta nova tríade, não pecando por uma certa aridez dramática que se viu nos anteriores, um defeito patente sobretudo no “O Ataque dos Clones”.

No entanto, continuo a achar que a aura que a série original porta é imperturbável, venham lá os efeitos especiais que vierem.
O fechar do ciclo não deixa de ter um sabor algo agridoce: sabemos agora «toda» a história, mas isso significa que acabou.

Depois, como não podia deixar de ser, fui à FANECA (Jão dixit) ver as novidades discográficas. E lá estava uma caixa a reluzir na minha direcção.
(malditas conspirações!...sabem que ando com um fraquinho por óperas de Gluck e Rameau e «espetam» aquelas coisas directamente nos meus olhos. :P)

Paride ed Elena” de Gluck, com uma das estrelas operáticas do momento: a mezzo-soprano checa Magdalena Kožená, acompanhada pelos Gabrieli Consort & Players (orquestra com instrumentos de época) dirigida pelo Paul McCreesh.
A história é bem conhecida, principalmente agora com o épico «hollywoodesco»: o drama de Páris e Helena.
A acção passa-se em Esparta, onde o príncipe Páris está como convidado, tentando secretamente conquistar a rainha Helena, convencendo-a mais tarde a fugir consigo para Tróia. O que se segue é já sabido: o rei Menelau descobre a fuga dos amantes e o resto é história.
Curiosamente, esta ópera também pertence a uma trilogia, a do ciclo reformista da parceria Gluck/Calzabigi: “Orfeo ed Euridice”, “Alceste” e “Paride ed Elena”. As duas primeiras óperas já as conhecia, são obras-primas inundadas de música sublime, quanto a esta última estou curioso.

O dia de ontem acabou com uma ida ao Teatro Latino no Sá da Bandeira para ver o espectáculo “O Menos Mau das Noites Nocturnas de Um Par de Dois” do grupo Teatro da Palmilha Dentada.

Foi uma noite muito bem passada com esta comédia. Já tinha visto este dueto (Ivo Bastos e Rodrigo Santos) anteriormente e foi porreiro ver o que eles evoluíram desde a última vez – são ambos estudantes de teatro no ESMAE. A propósito, eles fazem todas as manhãs um programa na Antena1.
Aconselho vivamente a irem ver. Numa sociedade em que viver da arte é um caminho de grande coragem, há que apoiar quem o segue com mostras de seriedade e de qualidade.
E para terminar, deixo-vos com um poema ontem declamado. Fez-me pegar num livro do poeta e revisitar velhos amigos.


Poema do fecho éclair

Filipe II
tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro
com pedras rubis.
Cingia a cintura
com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.

António Gedeão

segunda-feira, maio 16, 2005

Areia a dançar

Este fim-de-semana foi porreiro. No sábado à noite fui a Serralves com o FP, a namorada e o pai dele ver um espectáculo de «dança»: “Sand Table”.
Apesar de pouco ter a ver com dança, não fiquei desiludido com a «falsa propaganda», gostei bastante.
Tudo se passou no tablado do auditório, onde estavam montados dois andaimes de ferro (o palco era pois uma passadeira), no meio dos quais estava uma mesa de vidro cheia de areia por cima. Um vídeo era projectado na areia mostrando um corpo imóvel.
Passados uns minutos uma «dançarina» aproximou-se e começou a manipular a areia à medida que os corpos desfilavam no vídeo, aí sim dançando.
Modificava as suas formas fazendo montes de areia, e.g., dava a ideia de que o corpo projectado estava grávido, levitava a cabeça de uma pessoa enchendo as suas mãos de areia e elevando-as no ar, «empurrava-a» para fora da mesa, deitava areia na cara projectada ao que esta reagia sacudindo-se, fazia-lhe cócegas e o corpo contorcia-se, enfim, uma série de interacções com o filme que ia sendo mostrado. Só visto: contado não é a mesma coisa. Achei a ideia muito original.

Depois, à saída, ainda ficámos um pouco no bar a saborear uns bons cálices de Porto acompanhando-os com uma conversa sobre o sempre interessante tema: o que é a arte, as suas definições, os seus objectivos e manifestações.
No domingo voltei ao museu para ver uma exposição de fotografia que o FP me recomendou: “FAR CRY” de Paulo Nozolino. De facto, era muito boa, mesmo tendendo às vezes para a declarada morbidez de espírito. Recomendo.

Depois fui ver uma outra exposição, da autoria de um artista alemão: Gregor Schneider. Espectacular.
Era um labirinto: entravámos numa pequena sala branca (2,5m*2,5m) com duas portas e tínhamos de ir avançando.
O problema/gozo é que eram por volta de 20 salas, garagens, etc, com réplicas! Ou seja, a dada altura entrávamos numa sala, víamos os quadros pendurados na parede ou outros objectos e pensávamos «Ah, já aqui estive!», mas não era verdade. Felizmente não tenho mau sentido de orientação e fui decorando os meus passos. Foi bem divertido: estava sempre a encontrar pessoas a entrar e sair das salas que se riam como tolas. E eu também. :D

Nesse dia à tarde lá trabalhei um pouco para a cadeira de FVC e depois fui um bocado para o piano onde consegui finalmente dominar com algum grau de confiança uma peça de Bach que tinha pendente há já um tempo: a Guige da Suite francesa n.º3.
Já não era sem tempo! Mas enfim, aquilo também não é pêra doce.
(Quem quiser ouvir um pouco, basta clicar no link.)
E agora deixo-vos com a letra de uma música que estou a ouvir: “Let’s Dot It (Let’s Fall in Love)” de Cole Porter, cantada pela magnífica Ella Fitzgerlad com um sentido de humor bestial: quase todas as palavras têm um duplo significado.
Enjoy. :)


«Birds do it, bees do it,
Even educated fleas do it,
Let's do it, let's fall in love.

In Spain, the best upper sets do it,
Lithuanians and Letts do it,
Let's do it, let's fall in love.

The Dutch in old Amsterdam do it,
Not to mention the Finns,
Folks in Siam do it, Think of Siamese twins.

Some Argentines, without means, do it,
People say in Boston even beans do it,
Let's do it, let's fall in love.

Romantic sponges, they say, do it,
Oysters down in Oyster Bay do it,
Let's do it, let's fall in love.

Cold Cape Cod clams, 'gainst their wish, do it,
Even lazy jellyfish do it,
Let's do it, let's fall in love.

Electric eels I might add do it,
Though it shocks 'em I know.
Why ask if shad do it - waiter bring me “shad roe”.

In shallow shoals, English soles do it,
Goldfish in the privacy of bowls do it,
Let's do it, let's fall in love.»

segunda-feira, maio 09, 2005

Retrato a Sépia

Eis-me de volta ao meu blog, passada a semana da Queima.
A particularidade é que eu não fui ao dito «incêndio», mas sim a outra queima: a do sol do Algarve. Não que me tenha queimado…isto graças às abundantes untadelas com creme: coisa que há uns anos eu abominava, tendo hoje de admitir que de facto resultam.
Correu tudo bem: o tempo esteve excepcional, o apartamento era porreiro e as praias estavam sossegadas: nada da confusão típica do verão.
Conduzi quase todos os dias, casa-praia, praia-casa e também na vinda para cima: um pedaço na auto-estrada. Deu para praticar um bocado.
Vou só contar um pequeno episódio que me aconteceu na praia.
Estava o meu pai e eu no mar, com a água ao nível do tronco, quando, de repente, vejo a 2 metros de nós algo escuro a movimentar-se vagarosamente.
Alertei o meu pai, apontando para aquela aparição vinda do nada.
Acercámo-nos dela aos poucos. Não era nada de ameaçador.
Não era uma alga, era um animal ferido. Mal o vi, pareceu-me ser uma lula. Era um ser listrado de castanho e branco, com a cabeça tombada e com os braços visivelmente mutilados. Toquei-lhe e não reagiu.
O meu pai pegou nele trouxe-o então para o areal.
Aí, após uns momentos de observação, vi que não era uma lula, mas provavelmente um choco. Um cefalópode era de certeza.
Mas que choco: devia ter uns 30cm!
Reparei que o «pescoço» estava quase completamente cortado, a cabeça apenas suspensa «por um fio».
Estava morto, mas o que quer que tivesse acontecido tinha-o sido há pouco tempo, uma vez que o manto listrado ainda respondia ao toque: a espessura das riscas mudava e havia mudanças de cor (via-se muito bem o movimento das cromatóforos: células coloridas do tegumento).

Cromatóforos (ampliação)

Peguei logo na máquina e consegui captar isso em vídeo, para além de ter tirado umas fotos.

Dado que já não estava vivo e porque não era bom que ali ficasse exposto à beira da rebentação, decidi, ainda que hesitante, trazê-lo para o apartamento a fim de o analisar. Assim o fiz, ainda que a minha mãe não tenha gostado muito da presença do «bicho».
Ainda que com material laboratorial improvisado, lá o examinei.
Como já estudei a anatomia de cefalópodes há mais de um ano, tive umas dúvidas na anatomia interna, incluindo o aparelho reprodutor. A propósito, era um macho.
Quando voltei no domingo, fui aos meus livros de zoologia tirar dúvidas. Fiquei contente por ter identificado correctamente a maioria dos órgãos e tecidos, o que quer dizer que a formação que o meu curso me está a dar não é nada má. Afinal de contas, daqui a pouco tempo serei um biólogo e é preciso trazer comigo o conhecimento para fora das portas da faculdade, para a vida real.
Fiz na net mais pesquisas e parece-me ter encontrado a espécie a que pertence aquele exemplar. Se fosse de facto um choco, seria do género Sepia, pelo que fui procurar as espécies existentes. Encontrei um site muito completo: o CephBase, com «quilos» de informação sobre a classe dos cefalópodes.
Penso que o animal é da subespécie Sepia sepia officinalis, ou seja, Choco vulgar.

Há vários dados a apoiar isto: 1º é uma espécie que existe normalmente nas nossas águas, 2º as características anatómicas e de coloração são idênticas (incluindo a comparação do esqueleto que guardei comigo). É também, das mais de cem espécies conhecidas de Sepia, a mais antiga: descrita por Lineu em 1758.
Obviamente, como não sou um especialista, é bem possível que esteja enganado.
Apesar de toda esta experiência ter sido cientificamente muito interessante, é pena ter encontrado o choco moribundo. Infelizmente, deve ter sido abalroado por uma das muitas embarcações que passam constantemente em frente à praia: barcos de pesca, de turismo, iates, motas de água, etc. Deve ter vindo à superfície para se alimentar e foi traçado pela quilha. :(

Mudando de assunto…
Ontem à tarde, fui com os meus pais à Casa da Música ouvir a célebre Mitsuko Uchida tocar as últimas três sonatas de Beethoven (Opp. 109, 110 e 111): uma tarefa e pêras para qualquer pianista.

Foi porreiro ver a sala cheia outra vez.
O concerto foi muito bom e teve momentos realmente mágicos, principalmente em partes mais contemplativas como, e.g., o 3º andamento da Op.110 e sobretudo no final etéreo da Op.111.
(No fim da última sonata, aconteceu algo de extraordinário: a pianista acabou de tocar, mantendo ainda as mãos sob o teclado...ou seja, a performance não havia terminado. E público não bateu palmas, ninguém! Ficámos um minuto ou mais sem ouvir um único som, a sala em peso em silêncio...até que a pianista retirou muito lentamente as mãos do piano e colocou-as no seu regaço. Aí, espontaneamente a sala levantou-se para a aplaudir cheia de entusiasmo. Aquele minuto foi arrepiante.)
Desde os primeiros compassos da Op. 109, vi que ela tinha um domínio fantástico sobre os pianos, algo que é difícil de obter, acreditem.
O recital desta pianista japonesa trouxe-me uma ideia muito refrescante na arte de tocar piano. Reparei que em partes bastante líricas como a última variação do 3º movimento da Op.109, as notas «expectavelmente» mais belas eram tocadas de modo «normal». Ou seja, apesar da sua execução ser cuidada, ela não se esforçava muito por embelezá-las, o que fazia às notas mais «vulgares». Passagens que eu julgava desenxabidas tornaram-se sob as mãos dela autênticas descobertas.
De repende, fez-se luz na minha cabeça. Foi uma revelação.
(Como é que eu nunca tinha pensado naquilo antes?)
Não há a necessidade de «maquilhar» certas passagens quando estas já contêm em si um grau natural de beleza, por outras palavras, «o belo» é-lhes inerente. E se assim é, porque não cuidar mais atentamente das notas mais desfavorecidas, mais abandonadas, e trazer-lhes uma nova vida, uma sonoridade fresca e reforçada.
Agora que penso nisto, parece-me tão óbvio. Enfim… «Deus está nos pormenores.»
E em material com tanta profusão de ideias como as últimas sonatas de Beethoven há «pano para mangas».
Este concerto veio mesmo a propósito: nesta semana li uma pequena biografia de Beethoven pela historiadora francesa Élisabeth Brisson. Um livro que foi editado pelo Público aquando da «Festa da Música» no CCB, festival a que tive de faltar para ir ouvir o Brendel.

Foi uma leitura interessante, pois complementei bastante o meu conhecimento sobre a vida deste gigante revolucionário.
Estas três ultimas sonatas, vistas por muitos como o seu derradeiro legado «pianístico», são de facto obras geniais e de uma profundidade espiritual esmagadora. E não só: ninguém fica indiferente ao ritmo «swingado» da 3ª variação da Arietta da Op. 111: 100 anos antes do jazz.
Aquele homem era mesmo fenomenal.
Parafraseando o próprio compositor num dos seus «ditos» mais famosos, quando mandou o seu mecenas principal, o príncipe Lichnowsky, «dar uma volta ao bilhar grande» por este lhe ter «pedido» que desse um concerto aos oficiais franceses, invasores da Áustria:
"Príncipe, se o que sois o deveis ao acaso do nascimento, aquilo que eu sou, sou-o por mim; príncipes há-os e continuará a havê-los aos milhares; Beethoven há só um!"
Como de costume, nada modesto, mas bem certeiro. :)