sábado, abril 30, 2005

Locus Electrophoraeticus

Nesta semana andei meio atabalhoado.
Pediram-me na 3ª-feira à tarde para fazer uma apresentação em powerpoint sobre a electroforese (uma técnica de biologia molecular) e as suas aplicações (sequenciação de DNA, ciências forenses, taxonomia, etc.); isto para apresentar no dia seguinte (!) numa acção de formação de professores do ensino secundário.
Apesar de ter sido em cima da hora, lá consegui fazer o trabalho, que até não ficou muito mau.
Como nunca falei aqui sobre isto, aproveito agora.
Estou inserido num grupo de alunos do curso de Biologia cujo objectivo é levar às escolas secundárias trabalhos laboratoriais que temos na faculdade e com isso tentar motivar os alunos para esta área. Há experiências de ramos tão variados como Biologia molecular, Microbiologia, Fisiologia vegetal, Micologia, Anatomia animal, etc.
Dado que a electroforese é uma técnica relativamente recente, nesta 4ª-feira fomos à E.S. Francisco de Holanda em Guimarães mostrar a um grupo de mais ou menos 20 professoras daquela zona o que é esta técnica, falar sobre as suas vantagens e «correr» alguns géis lá no laboratório.
Não usámos mesmo DNA, senão tínhamos de usar luvas, brometo de etídio (uma substância mutagénica) e radiação UV. Para evitar isso usámos uns corantes que deram bem conta do recado.
Para quem não sabe, a electroforese é um método que permite separar biomoléculas fazendo-as migrar por uma matriz (um gel) sob acção de um campo eléctrico.
Depois obtêm-se estes géis interessantes com bandas de DNA fluorescentes:

Correu tudo bem. Apesar de não ter preparado convenientemente a apresentação, não me «espalhei». Acho que as prof.ªs gostaram. :)
À noite fomos jantar a casa da F, uma colega nossa que é de lá. Estivemos na galhofa a contar histórias sobre telefonemas anónimos e coisas semelhantes. Foi porreiro. Viemos do berço da nação já tarde e chegámos cá quase à 1h.
No dia seguinte, acordei às 6h para me encontrar com o pessoal no Botânico e daí zarpar para a E.S. do Castêlo da Maia, antiga escola do TB.
Levámos três protocolos: reprodução sexuada e assexuada de fungos, efeito de algumas fito-hormonas na abcisão foliar de plantas, e electroforese.
Fizemos primeiro uma apresentação sobre Biologia e as suas vertentes mais «na berra»: oncobiologia, organismos transgénicos, clonagem, etc. Tentámos fazer com que os alunos (11º ano) interviessem e colocassem perguntas. Mas se fazer com que eles respondessem às nossas já foi complicado, imagine-se esperar pela participação espontânea deles.
A turma foi então dividida por três grupos de seis.
A S e eu ficámos responsáveis pela elctroforese. Tínhamos uma pseudo-recolha do local de um crime (e.g., sangue, pêlo) e várias amostras de suspeitos; íamos usar a electroforese para determinar quem era o criminoso comparando os padrões de bandas obtidos.
Falámos na badalada série C.S.I., na sequenciação do genoma humano, na detecção de doenças genéticas e outras e... nada, em 6819849 aplicações da técnica e... nenhum interesse, era como falar para uma parede.
Só no fim da aula, quando eles viram os resultados - as «corezinhas» no gel e comparando as bandas, descobriram quem era o culpado - é que mostraram sorrisos e um brilho nos olhos: foram uma audiência difícil. Mas só pela reacção final, já valeu a pena. Suponho que eles estavam inibidos no início. Caso contrário, o pessoal está mesmo muito desmotivado.
Na 6ª, ainda um bocado atordoado, consegui ir ao fNACO, visto ser o dia do aderente e eu queira aproveitar os 10%.
Comprei um CD de voz e piano que estou agora ouvir:

«An die ferne geliebte» (À Bem-amada distante) de Beethoven e o derradeiro ciclo de canções de Schubert: «Schwanengesang» (O Canto do Cisne).
Schubert compôs uma fornada de peças geniais poucas semanas antes da sua morte: o seu «canto do cisne». A força fantasmagórica de algumas destas canções não tem paralelo em nada que eu conheça (apenas noutro ciclo dele: «A Viagem de Inverno»). Sobretudo em casos como o arrepiante e lunar «Doppelgänger» em que o sujeito se vê a si próprio, o seu «sósia», numa aparição macabra, angustiado em frente da casa da sua amante, sofrendo a sua perda. Mais locus horribilis de que isto é díficil. Um apogeu do Romântico.
Tudo isto trazido à vida pelas discretas mas brilhantes mãos do Brendel e pela magnífica voz do barítono Matthias Goerne, ao vivo (!) no londrino Wigmore Hall.

segunda-feira, abril 25, 2005

Revolução dos Cravos

Só para lembrar que a liberdade não é um valor gratuito e que a devemos ter sempre como um bem precioso.
Basta uma simples ida ao dicionário: ler o significado de «Liberdade» e pensar de facto como seria a nossa vida se dela fossemos privados, o quão imprescindível é.

Liberdade (do Lat. libertate), s. f.
. faculdade de uma pessoa poder dispor de si, fazendo ou deixando de fazer por seu livre arbítrio qualquer coisa;
. gozo dos direitos do homem livre;
. independência;
. autonomia.
- de consciência: direito de emitir opiniões religiosas e políticas que se julguem verdadeiras;
- de imprensa: direito concedido à publicação de algo sem necessidade de qualquer autorização ou censura prévia, mas sujeito à lei, em caso de abuso;
- individual: garantia que qualquer cidadão possui de não ser impedido de exercer e usufruir dos seus direitos, excepto em casos previstos por lei.

domingo, abril 24, 2005

Brendel

Eram 20:40 quando saí ontem de casa, dirigindo-me à Casa da Música para ir ao meu primeiro concerto (pago) na dita sala: o recital do Alfred Brendel.
Devido à minha fé inabalável («não vai chover!»), fui destemidamente sem guarda-chuva. Estando o universo contra mim naquela altura, mal pus o pé na rua, começou a gotejar. Felizmente, parou logo a seguir. Foi uma piada de mau gosto do firmamento.
Cheguei ao cristal de cimento pouco depois. Quando entrei no hall, os meus ouvidos foram invadidos por uma cacofonia de várias línguas. Nunca vi tanta gente estrangeira num concerto. Ouvia-se inglês, alemão, francês, espanhol, talvez sueco e possivelmente swahili. :P

Lá entrei na sala recheada com uma plêiade considerável: «tout Porto» estava lá e ainda algumas personalidades «mouriscas». Não vou ficar aqui a fazer a lista porque nem isto é um blog «cor-de-rosa» nem eu tenho paciência para tal.
Vamos ao mais importante: o concerto propriamente dito.
Às 21:01 ou por aí, as portas fecharam e o Brendel entrou logo a seguir. Incrível! Eu estou habituado a que tudo comece 15 minutos depois e que as pessoas entrem sempre ao longo do espectáculo.
Os poucos concertos a que assisti lá fora começaram impreterivelmente à hora marcada, mas isso é normal. Aqui é novidade. Mas devo dizer que acho muito bem, e quem me conhece sabe que contra mim falo.
Este era o programa:

1ª Parte
W. A. Mozart - Nove Variações sobre um minuete de J. P. Dupont K.573
R. Schumann - Kreisleriana Op.16

2ª Parte
F. Schubert - Momentos Musicais D.780
L. van Beethoven - Sonata N.º15 Op.28, "Pastoral"

Quando o Brendel entrou foi aplaudido calorosamente, como se fosse já o fim do concerto, ou seja, a sua mera presença chegou para nos imbuir num clima de respeito pela sua figura já mítica. É sempre curioso observar como os grandes vultos da nossa sociedade, à medida que caminham de mão dada com Chronos, se tornam alvos de uma reverência ímpar, devido ao seu estatuto de semi-deuses.
O ancião genial (74 anos), tido por muitos como o maior pianista vivo, sentou-se em frente ao Steinway imaculadamente polido, durante um instante pairou as mãos sobre o teclado e começou a tocar.

Não conhecia a peça, por isso foi interessante escutá-la. O tema singelo de Dupont é exposto calmamente, seguindo-se um conjunto de variações que se encadeiam com uma naturalidade muito «mozartiana».
A graça, a simplicidade necessária para tocar Mozart é um dom especial e muito difícil de atingir; falo por experiência própria.
Um grande pianista, Arthur Schnabel, um dia disse mais ou menos isto: «Mozart é muito fácil para as crianças e demasiado difícil para os adultos». Para mim, isto resume grande parte da questão.
Apesar de ter gostado (ou não fosse Mozart uma especialidade deste pianista austríaco), notei que algo me estava a incomodar. As notas não estavam claras, bem definidas, sobretudo nas escalas: o som estava pastoso. Algo que não fica nada bem em música clássica (com isto quero dizer música do final do séc. XVIII).
Porque estaria isto a acontecer? O Brendel estaria a usar muito o pedal (o que retira os abafadores das cordas e deixa o som perdurar)? A acústica da sala seria má? O piano não estaria bom?, seria demasiado novo? Não tenho resposta.

Seguiu-se a Kreisleriana, uma obra-prima de Schumann, que deixa transparecer os momentos de depressão e loucura do compositor. Eu achava (e continuo a pensar o mesmo) que aquilo não é bem o terreno do Brendel.
Há certas vertentes da música do Romântico que ele não consegue transmitir convincentemente. Daí a fama que ele tem: demasiado racional, frio, quase mecânico. Note-se que o Brendel nunca toca Chopin, por exemplo.
Houve muito bons momentos, mesmo assim. Mas havia sempre o desgraçado do som do piano, sempre a ensombrar a música. Enfim…
Intervalo.
Dei uma passeata pela extraordinária sala, vi mais gente conhecida; os professores do Conservatório estavam lá em peso.

O concerto foi retomado com Schubert, uma selecção de alguns Momentos Musicais. Estive particularmente atento ao Momento n.º2 porque foi uma das peças que toquei no meu exame de 5ºgrau no Conservatório. Não vou dizer que toco aquilo melhor do que o Brendel, pois isso não é verdade e seria também uma enorme presunção. Digo apenas o seguinte: gosto mais da minha interpretação do que da dele. :P
Reparei numa coisa boa: aquele som «desfocado» estava a desaparecer. Ainda bem.
Até aqui o sarau estava a correr bem, mas a «Pastoral» de Beethoven ainda elevou mais o nível da performance, foi um auge. Dificilmente irei ouvir na minha vida aquela sonata melhor tocada. Roçou a perfeição. Só é superada a nível de sentido de humor pela versão do Wilhelm Kempff que de vez em quando vem cá a casa tocá-la.
No fim, aplaudimos intensamente e em massa. Uma série de «Bravo!»s saltou para cima do pianista, que os aparou com um leve e plácido sorriso.
Houve dois encores: o Impromptu n.º3 de Schubert, uma obra favorita do Brendel, que aliás abre o seu site oficial. Uma delícia melódica.
Seguiu-se uma das experiências mais etéreas que tive. Suponho que tenha sido um Coral de Bach, umas das muitas transcrições que Busoni fez das obras para órgão do Kantor de Leipzig. Foi um momento transcendente, a profundidade daquela peça foi esmagadora. Uns graves calmos e soberbos encheram a sala. Indescritível.
Acabou com a sala toda (!) de pé a ovacionar aquele gigante.

Vim-me embora para casa com um genuíno sorriso nos lábios e que durou muitos minutos, um encantamento com que já não era presenteado há uns tempos.
E porque a felicidade se resume a momentos…Naqueles instantes em que caminhei sozinho pelas ruas adormecidas do Porto, tendo apenas por companheira uma esplendorosa Lua adornada com um halo de prata, sonhei ao som daquela música e fui feliz.

Lua cheia (foto tirada da minha varanda, hoje às 22:18)

terça-feira, abril 19, 2005

Gaudium Magnum

Nasce para o mundo o novo papa: Bento XVI, anteriormente conhecido como Cardeal Ratzinger.
«Quem entra papa,…», sai papa.

Eis um homem que pode ser simplesmente descrito como conservador ou tradicionalista por uns mas também como reaccionário ou fundamentalista por outros com uma opinião mais vincada. Há muitos que não hesitam em apontar-lhe proximidades com a Opus Dei.
Bem…como não estou familiarizado com a vida e obra dele não me posso pronunciar com grande solidez.
No entanto, pelo que tenho lido ultimamente parece-me que a igreja católica deu um passo para trás com esta eleição. Para trás ou pelo menos para ficar no mesmo sítio. Isto porque este cardeal era o braço direito do pontífice anterior e porque desempenhava um cargo direccionado para a preservação da presente doutrina católica: Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a mais antiga congregação da Cúria romana e que até ao início do séc.XX era chamada pelo tristemente famoso nome de Tribunal da Santa Inquisição (apenas uma «curiosidade»).
É portanto um zelador dos valores doutrinários vigentes…um «moralista», se assim o podemos catalogar. É por isso um homem com grandes e variadas influências, dentro e fora da igreja.
Curiosamente, desde há uns bons tempos que um cardeal não era eleito com uma idade tão avançada. Há também os seus conhecidos problemas de saúde. Será de facto um «papa de transição» como alguns sugerem?
Não ponho em questão a alta capacidade intelectual e vasta cultura que todos lhe gabam. A questão é que pelos vistos desde o concílio Vaticano II ele tem vindo a revelar-se cada vez mais ortodoxo e anti-liberal… alguém que se manifestou contra o sacerdócio das mulheres, contra a comunhão de pessoas divorciadas e que por essa cristandade fora «pôs na linha» vários teólogos mais afoitos.
Mesmo não sendo um católico praticante sinto-me descontente com este novo bispo de Roma. Confesso que ficava feliz se do conclave saísse alguém com um perfil progressista, com um espírito realmente aberto à sociedade, à urbe e à orbe.
Tudo indica que o novo papa não será assim.

Annuntio vobis gaudium magnum. Habemus Papam.

Será mesmo uma «grande alegria»? Não sei. Sinceramente.

segunda-feira, abril 18, 2005

Finalize Steve Davis

Neste fim-de-semana, sob um raiar intermitente, reencontrei uma velha conhecida nos jardins do Palácio de Cristal. Aqui está a dama que já há uns tempos não via, alguém de quem tinha saudades:

Tirei mais fotografias, mas não as vou pôr aqui, senão isto começa a transformar-se num photoblog.
No fim desse sábado fui ouvir uma banda de garagem (literalmente). O guitarrista e cantor da banda é irmão de um amigo meu: o ZP - foi dele que recebi o convite.
Lá fui eu à Rua do Breiner, perto da Rua de Miguel Bombarda (o Soho portuense. lol), a um «espaço artístico» chamado «Os Quatro Gatos». Para não variar, cheguei atrasado, mas não houve grande mal pois eles ainda não tinham começado.
A banda chama-se Finalize e tem quatro elementos: baixo, guitarra eléctrica, viola e bateria.
Quando eles começaram o concerto deu para ver (ouvir) que as condições acústicas não eram as melhores, mas o «som» deles era bom.
Tocaram temas originais, o que foi interessante. Ao ouvir algumas das canções dei comigo a pensar que a música deles tinha influências familiares (Beatles), sobretudo quando tocaram uma sequência em que os instrumentos se iam encadeando com motivos repetitivos, muito early Beatles.
(fiquei a saber mais tarde que isso foi improvisado, pois não era para sair assim.)
O mais curioso é que passado um bocado eles apresentaram uma versão de uma música dos ditos britânicos. «Não há coincidências!» (já dizia a grande escritora M. Rebelo Pinto, vulto maior da nossa paisagem literária :P)
Infelizmente, passado um bocado chegou um «senhor agente da autoridade» que nos veio trazer a «boa nova»: os vizinhos tinham feito queixa. Fez ali falta alguém com o decreto-lei na mão a dizer qual é o limite de decibéis e exigir ao polícia uma medição in loco.
Pois…estou a ser parcial, porque até é compreensível que num sábado à tarde as pessoas queiram estar sossegadas. Beethoven foi expulso de algumas casas onde viveu por que «fazia demasiado barulho». Se alguém tivesse hoje Beethoven como vizinho faria o mesmo? (eu até aposto que sim.)
Enfim, não foi assim tão mau: ainda deu para ouvir um bocado os Finalize; espero que singrem, pois há ali potencial.
No domingo fui com o FP ver o «Life Aquatic With Steve Zissou» («Um Peixe fora de água») de Wes Andersen, um filme que já andava a namorar há uns tempos.

Gostei bastante. Foi refrescante ver um filme norte-americano («Hollywoodesco», precisemos) com ideias novas.
A quantidade de gags é fenomenal. O humor é por vezes tão seco que roça o mais puro absurdo – o meu tipo favorito.
Diga-se que o filme não é perfeito, tem zonas um pouco pantanosas e não muito bem conseguidas. Na minha opinião, algumas personagens não resultaram nada bem, e.g., Willem Dafoe.
Neste último caso penso que não houve sucesso porque a veia cómica deste actor é inexistente ou então porque o meu imaginário faz com que eu o veja sempre como mau da fia. Não sei.
No que toca à personagem central (Steve Zissou, um pastiche declarado do Jacques Cousteau), o Bill Murray encaixa como uma luva no papel, é uma interpretação espectacular. Aliás, ele nem precisa de interpretar, basta ser ele próprio como bem diz o critico do Público.
É também de salientar o cuidado na composição fotográfica dos planos (sobretudo os de estúdio) que teve resultados bastante interessantes.

Ao vir embora da sala esqueci-me de um CD que o FP me tinha dado. Felizmente, voltei a tempo de o resgatar.

É um dos maiores clássicos discográficos da história do Jazz: o álbum «Kind of Blue» de Miles Davis. E vem com um bónus: um DVD com um documentário sobre a vida deste trompetista.
Já o vi e é bastante interessante, especialmente porque aquilo é quase uma mini-introdução histórica ao Jazz da 2ª metade do séc.XX devido à enorme quantidade de pessoas excepcionais que trabalharam com o M. Davis. A lista de notáveis que tocaram com ele é mesmo incrível.
Quanto ao CD ainda não posso dar uma opinião sólida, mas o que ouvi até agora foi muito bom. Estou confiante que a nomeada deste LP se vai confirmar.

P.S.: Na 6ªfeira tirei a carta. (LOL)

sexta-feira, abril 15, 2005

Adagietto da 5ª Sinfonia de Mahler

Convida-me uma harpa gentil a sonhar a morte, ganho confiança com o sussurrar dos violinos e entro na sua morada. Há uma pequena lágrima ditosa na resolução final da primeira melodia; vejo-a, falo com ela, mas abandona-me por momentos.
Regressam as violetas para me socorrer e guiar na viagem. Sem elas, ter-me-ia perdido.
Já não é só um lamento adocicado que o meu ouvido saboreia, há ali uma dor latente que se manifesta agora numa cascata harmónica, numa torrente esfuziante de água.
O regato torna à sua aparente acalmia; consigo observar bem o leito: límpido, despojado de qualquer turvação. Pela água clara, sorri-me de novo a melodia; vislumbro o seu cerne, a criança que foi em tempos.
De repente um pequeno fel perpassa: um azedume passageiro.
Logo após, surge um período de divagação que não deslindo completamente: revisitam-se memórias, algumas doridas, outras felizes. Não o compreendo bem; aliás não vale a pena: apenas a melodia sabe o que sente.
Uma respiração; as cordas da harpa dão-me a mão e levam-me de volta ao tema inicial, desta vez mais seguro.
Um novo grito surge, uma nova corrente de água lembrando a saudade de uma qualquer beleza dourada.
Extingue-se aos poucos a voz deste chamamento desalentado: um final gravemente sublinhado pelo murmúrio contínuo dos contrabaixos, embalando-me até ao silêncio.


Der Kuss (O Beijo) de Gustav Klimt, 1908

domingo, abril 10, 2005

Siza

Fui hoje de manhã a Serralves ver uma exposição com obras do Arq.º Siza Vieira.
Ontem ouvi-o numa entrevista e achei que uma visita podia ser interessante.
Estão lá em exibição várias maquetes de projectos (construídos ou não) assim como desenhos e esboços do autor (encontrei um em papel de confeitaria, imaginem).
Vi coisas bastante interessantes, sobretudo um projecto de um espaço permanente para o Guernica de Picasso. Genial.

Depois andei a deambular por uma exposição de um escultor «estado-unidense»: Robert Grosvenor.
Não posso dizer que tenha gostado ou desgostado. Tudo o que digo é que fiquei indiferente.
Estava lá uma peça dele que acho que vale a pena referir: um simples tronco de pinho, nú, deitado no centro da sala. (Sim, isso mesmo.)
Não vou ficar para aqui a dissertar sobre a óbvia falta de sabor de boa parte da arte contemporânea ou sobre as suas antigas originalidades e provocações, hoje perdidas numa conduta artística gasta e num aparente estado patológico de impotência.
Vejam a foto e julguem vocês mesmos.
O que me valeu foi ficar a apreciar a arquitectura do Siza - a do próprio museu - pintada pela luz límpida que se passeava hoje por ali.

P.S.: Será que a cadeira também uma obra de arte? :P

segunda-feira, abril 04, 2005

Teta Transgénica

Cada ano, a indústria leiteira norte-americana perde cerca de 2 biliões de dólares por causa da mastite, uma infecção nas glândulas mamárias das vacas que causa uma perda na produção de leite.
Uma bactéria que geralmente causa esta doença, Staphylococcus aureus, é resistente ao tratamento: somente 15% das infecções são combatidas eficazmente por antibióticos.
Para resolver este problema, uma equipa de investigadores dos E.U.A. introduziram um gene da bactéria Staphylococcus simulans no DNA de vacas de Jersey. Isto permite-lhes produzir uma proteína, normalmente sintetizada pela S.simulans, que mata S.aureus.
É a primeira vez que biólogos criam vacas transgénicas resistentes a uma doença.
Robert Wall e colegas criaram cinco vacas transgénicas adultas que possuem o gene para a Lisostafina, proteína da S.simulans.
Os três animais que se submeteram a testes mostraram uma resistência superior à infecção pelo S.aureus em comparação com as suas «colegas» não-transgénicas. Nas glândulas mamárias das três vacas transgénicas inoculadas com culturas das bactérias da mastite, somente 14% ficaram infectadas; comparando com 71% nos animais do controlo.
É interessante indicar que a vaca transgénica que produziu a maior quantidade de Lisostafina nunca se tornou infectada.
Os investigadores dizem que esta molécula parece não atacar nenhuma proteína produzida por mamíferos, e é improvável que seja prejudicial quer para vaca quer para o consumidor.
(adaptado de um artigo online da Nature Biotechnology)

Daqui a uns tempos, preparem-se para ver espécimens como estes:

sábado, abril 02, 2005

Casarão da Música

Hoje de manhã, estava eu no barbeiro à espera da minha vez para ceifar o cabelo, quando decidi pegar no JN que estava sentado no banco a olhar para mim. Comecei a folheá-lo calmamente quando de repente o meu queixo desceu um andar... os bilhetes da Casa da Música estavam à venda há dois dias, o concerto inaugural já estava esgotado e havia outros «em via de»!
Quando cheguei a casa, fui ao site ver como era então o «negócio». O concerto com a Philharmonia Orchestra estava de facto esgotado, o do Brendel também. :(
Apesar disso, ainda havia muita coisa boa onde pôr as mãos.
Fui então com o meu pai almoçar (francesinha...ao tempo) e dirigi-me à bilheteira da Casa.

Vim de lá agora com 12 (!) bilhetes na mão. Não se espantem porque não é tudo para mim. Quando a recepcionista disse o total, eu devo ter passado por várias cores. Mas vale a pena.
Isto vai ser um festim...vou a 5 espectáculos. Tive até uma boa surpresa, porque ainda havia 2 bilhetes para o Brendel: um dos quais já cá canta.
O primeiro recital vai ser esse. Tenho vários CDs do Alfred Brendel, mas nunca o vi ao vivo. Mozart, Schumann, Schubert e Beethoven...aquilo promete.

Segue-se uma pianista japonesa, a Mitsuko Uchida. Só a ouvi «cá em casa» a tocar Mozart. Desta vez ela vai tocar as 3 últimas sonatas de Beethoven: uma empreitada de peso.

Depois há dois concertos com o Grigory Sokolov: o primeiro com orquestra, o segundo a solo. Para muitos, este homem é simplesmente o maior pianista vivo. Um artista fora de série, um génio, que aliás só faz gravações ao vivo...nada dos artificialismos de estúdio.
Tenho espectativas bastante altas em relação este sarau.

O último que comprei foi para o contra-tenor Andreas Scholl: umas das vozes mais angelicais que conheço. Promete ser uma experiência etérea.

Para já são estes os que comprei. Mais virão, desde que a carteira o permita.

Ouvindo a Missa Solemnis de Beethoven, uma obra gigantesca. Com uma escrita vocal furiosa: o Gloria chega bem para levantar um morto da tumba, quanto mais para furar o tímpano a um vivo. :P