terça-feira, março 29, 2005

Páscoa na Senra

Mais um domingo de Páscoa em casa do meu avô.

Quando era pequeno ficava lá uns dias e participava na «não muito higiénica» tradição de beijar a cruz. Acho que ainda a levam lá a casa, mas não tenho a certeza.
Lembro-me…de me levantar de manhã cedo, vestir-me com sono, ir para a sala onde estavam pessoas que nunca tinha visto na presente encarnação, e beijar os pés de um Cristo de madeira que a colectividade já tinha antes polido com os lábios.
Agora só lá vou almoçar com a família e já nem sequer é em casa, devido à falta de condições logísticas. Não faz mal, estar com eles é o que importa.
Durante a tarde andei pela quinta a tirar fotos e dei de caras com algo que nunca ali tinha visto: uma perdiz! Fui atrás dela e consegui ficar a um metro de distância. Por causa disto suponho que não era selvagem.
Foi muito porreiro, fiquei mesmo perto, ela ficou a olhar para mim, eu tirei algumas fotos e consegui fazer um pequeno filme com ela a cantar.

Resumindo, foi um bom dia. Aqui vão mais umas fotos (isto começa a parecer um fotolog :P):


Funárias


Pinheiros com cones polínicos


Sobreiro com cortiça (um verde quase fluorescente)


Telhado pejado com líquenes

Ouvindo: Alfred Brendel ao piano, a tocar a sonata «Hammerklavier» de Beethoven. Um monumento musical.

domingo, março 27, 2005

E.N.E.B.

Fim do prólogo das férias da Páscoa.
Cheguei ontem de Faro onde passei os últimos quatro dias. Não, não fui «praiar». Fui participar no E.N.E.B. – Encontro Nacional de Estudantes de Biologia.
Correu bem, apesar de alguns percalços de organização local. Foi uma boa experiência: pessoal e pró-profissional.

Partimos às 7h de sexta-feira dos Leões com cerca de 50 pessoas. Apesar de não gostar de andar de camioneta, é sempre bom para fazer palhaçadas colectivas.
Chegámos ao hotel (que era porreiro) lá para a hora de almoço e fomos de seguida para o campus de Gambelas. Disseram-nos no hotel que era um salto a pé. Isto é, 2 kms. :P
A Universidade do Algarve tem umas instalações bestiais, sobretudo quando comparadas com as nossas (F.C.U.P.).
Lá, fomos à procura do sítio de entrega das pastas. No local estava tudo ao monte para receber as ditas mercadorias, uma confusão.
À noite, dirigimo-nos para a cantina para manjar. Comi sempre lá, à excepção de um jantar no campus da Penha e de um burrito no Fórum Algarve. :P A comida não era má, apesar de ter tido uma overdose arroz-doce: comi umas quatro vezes ou por aí.
Ao longo do encontro assisti a várias palestras interessantes, sobre temas tão diversos como aquacultura, cancro da mama, tubarões, desenvolvimento ósseo, manipulação de animais-modelo em genética, arrojamento de mamíferos marinhos, criação de novas empresas e oportunidades de emprego em Biologia. Esta última foi bastante útil, na medida em que o público pôde colocar perguntas aos oradores da mesa (é de salientar dois professores: um de biologia e outro de economia). Falou-se entre outras coisas da urgente necessidade de remodelar o ensino superior português, os planos de estudo dos cursos e fomentar a ligação entre universidade e indústria, academia e mercados de trabalho.
Concluindo, foi um fim-de-semana diferente que ainda deu para passar umas noites divertidas com os amigos, dar um salto a Faro, e comer Dons Rodrigos.
Aqui vão umas fotos:


quarta-feira, março 16, 2005

Os Cinco

Não vou falar da série de livros de aventura. O título é só para despistar. :P
Ontem estava a ouvir um CD com obras de alguns compositores russos do séc.XIX que pertenciam ao «Grupo dos Cinco». Esta trupe de revolucionários (musicais, não sociais) era composta pelos seguintes músicos: Balakirev, Cui, Borodin, Mussorgsky e Rimsky-Korsakov. Estes dois últimos do meu conhecimento e particular admiração.

Modest Petrovitch Mussorgsky (com o seu ar de aristocrata etilizado) por E. Repin, 1881

Quis ouvir «Uma noite no Monte Calvo», uma peça orquestral escrita por Rimsky-Korsakov a partir de fragmentos de Mussorgsky.
É das últimas músicas a aparecer no «Fantasia» de Walt Disney, um filme que vi vezes sem conta quando era pequeno e que ainda hoje adoro. A peça surge naquela cena em que somos confrontados com a figura diabólica do Chernabog.

Esta figura foi baseada em poses e feições do famoso Bela Lugosi (o Drácula «original») e também no deus eslavo da escuridão, Czernabog.
A pauta e o desenho são assombrosos e encaixam na perfeição um no outro.
Há outras partes daquela película que recordo agora sem conseguir evitar que um sorriso me desponte na cara. Toda a música que ali ouvi, ainda hoje tem um canto especial no meu ouvido e formou em grande parte o meu gosto musical.
Ei-la:
«Tocata e Fuga em ré menor» de J.S.Bach
«Dança das Horas» de Ponchielli

«Ave Maria» de Schubert
«A Sagração da Primavera» de Stravinsky
«Suite do Quebra-Nozes» de Tchaikovsky
«Sinfonia n.º6» de Beethoven
«O Aprendiz de Feiticeiro» de Dukas
(quem não conhece a célebre sequência do Mickey com o seu chapéu de bruxo?)

Ao escutar ontem a «cambada» soviética, estive a tentar deslindar porque é que se ouve uma dada música e se sente que é russa. É a harmonia, o ritmo, a melodia, a orquestração? O que é?!
Já não é a primeira vez que penso nisto, e no fim nunca chego a uma conclusão sólida. No entanto, acabo sempre por pensar nisto quando ouço música eslava. Há sons sobre os quais eles simplesmente detêm o monopólio. Mesmo nos mais ocidentalizados como Tchaikovsky e Rachmaninov se sente o odor a gelo siberiano.
Talvez a resposta esteja em todos aqueles factores ao mesmo tempo. Não tenho dúvida de que a solução está por ali algures. Há algo que perpassa quase todos os exemplos: o folclore, a música popular. Isso é seguro.
Na minha mente, associo constantemente esta paisagem musical à história russa. Lembro-me quase sempre daqueles filmes do Eisenstein com uma fotografia arrebatadora: «Alexandre Nevsky» e principalmente «Ivan, o Terrível».

domingo, março 13, 2005

Jack in the movies

Ontem foi um dia soalheiro em quase todos os aspectos.
De manhã fui passear com os meus pais pela Costa Nova, na ria de Aveiro. Um local que visitei várias vezes na minha infância. Ou seja, é automaticamente uma boa lembrança...todas aquelas riscas coloridas a pintarem-me os olhos.

Estava pouca gente e muito sol. As águas estavam serenas, apenas um moliceiro ia rasgando a calma que ali pousava. Mais ao longe via-se uns windsurfers que se debatiam com a falta de vento e a indesejada perspectiva de se afundarem.
Depois do almoço, fomos até à barra de Aveiro, passeámos um pouco. Percorremos o longo paredão, no fim do qual estavam depositados vários «pedregulhos» tetraédricos de cimento para fazer face ao temperamento das ondas. Num deles estava esta pequena «fábula» popular. Quando li, desatei a rir. Achei-a tão boa, que tive de tirar uma foto.

Depois à noite, fui com uns amigos ao cinema ver o «Shi mian mai fu» de Zhang Yimou. Em português, «O Segredo dos Punhais Voadores». :P

Já tinha visto o «Herói» (filme do mesmo realizador) e também tinha lido a crítica do Público, por isso já sabia o que me esperava: um filme com uma fotografia muito bonita, mas com um enredo de qualidade duvidosa.
E assim foi. O filme tem de facto planos deslumbrantes, mas no que toca à história aquilo ultrapassa o patético, sobretudo no fim. E mesmo a beleza da fotografia é exagerada. (Reparem bem: era demasiado belo!) O uso da cor, por mais brilhante que o fosse, começou a enjoar. Assim como os enquadramentos e os movimentos da câmara. Só não me fartei da coreografia dos combates, que são do melhor que há.

[É quase a mesma sensação que tive ao visitar Roma: é desequilibradamente bonito. Faziam falta coisas feias, por incrível que pareça.]
No artigo do Público, dizia-se que era quase certo que no final a audiência se ia rir com tanto disparate. E a verdade é que aconteceu mesmo!
Umas filas à nossa frente, estava um homem que volta e meia largava um gargalhada tipo jack in the box, mesmo apalhaçado. Se alguma personagem dizia alguma coisa ridícula ou se se passava alguma cena mais caricata, o homem ria-se alto e a bom som. De tal maneira que nós nos começámos a rir dele. Quase no fim do filme, em que a rapariga «renasce» pela 3ª vez ou por aí (vejam só o tipo de conto), ele ria-se a valer e uma boa parte da plateia fazia eco. Foi impagável.

segunda-feira, março 07, 2005

Shylock

Este sábado à tarde fui ver um filme que desejava ver há já uns tempos: «O Mercador de Veneza» de Michael Radford (realizador de «O Carteiro de Pablo Neruda», um filme excepcional).
Para além do realizador, também me chamava o facto de o actor principal ser o venerável Al Pacino. Não vim da sala de cinema nada desiludido, pelo contrário. Mais uma vez trouxe reforçada a alta conta em que o tenho. Uma actuação de génio.

O filme não é mau, em termos gerais, mas também não é extraordinário. Tem uma fotografia interessante (que saudades de Veneza), mas algumas falhas por aqui e ali «borram a pintura», e.g., na inadequação esporádica do argumento (adaptar Shakespeare também não deve ser «pêra doce») ou simplesmente em algumas cenas não muito bem conseguidas a nível de composição dramática. Caso contrário, poderia ser um filme muito bom. A música até não era má. Apareceu discretamente o Andreas Scholl (o melhor contra-tenor que ouvi até hoje) a cantar uma ou duas canções renascentistas inglesas.
Ao ver o célebre monólogo do judeu Shylock (personagem do Pacino) lembrei-me da mesma cena dita pelo Orson Welles. Ele fez nos anos 60 umas filmagens (incompletas) baseadas neste livro do Camões britânico. Um dia, quase de repente, decidiu completá-las (em parte): foi para o meio do deserto no Arizona, levou uma câmara, e vestido com uma gabardina, declamou magistralmente o monólogo com o pôr-do-sol a espreitar-lhe pelo ombro. É um momento arrasador. Na minha opinião supera até a performance do Pacino.

A história em si dá pano para mangas. O retrato de Veneza no século XVI e do gueto onde habitavam os judeus, mostrando a vida a que eram sujeitos, ajuda a contrabalançar um certo anti-semitismo patente na obra de Shakespeare, uma atitude bastante normal há uns séculos atrás: lembremo-nos, por exemplo, de Gil Vicente no «Auto da Barca do Inferno».
Shylock é mesquinho e descrito como um vilão sem piedade, mas também como um ser humano que sofre os abusos de uma sociedade injusta, um pai a quem roubaram a filha e que procura por isso a natural vingança, nas suas palavras, a vingança «cristã».
Apesar de o autor fazer dele o «joguete-mestre» nos seus jogos de moral, mostra ao mesmo tempo que esta persona non grata foi maltratada e que tem uma justificação para os seus actos. Ele coloca-nos numa posição em que sentimos uma inevitável empatia por este «mau da fita».
É curioso observar que a ideia pré-concebida do espírito avarento dos judeus se mantém até hoje. É quase uma imagem de marca: aquele apego obsessivo pelo dinheiro. Até o próprio Woody Allen (de ascendência sionista) parodia com isso.
[Aproveito para fazer uma recomendação: a prosa completa de Woody Allen, em inglês, porque depois da tradução uma boa parte das piadas devem desaparecer do mapa. Nunca me ri tanto ao ler um livro; vou guardar umas páginas para as férias. Quem gostar dos filmes dele, de certeza que vai adorar a escrita…ainda com o fulgor humorístico do anos 60 e 70, antes do aparente declínio em que a andropausa o colocou. A não perder.

]

sábado, março 05, 2005

Beleza Metálica

Esta quarta-feira era para haver uma sessão de home cinema com o Puredo, mas o pessoal decidiu-se pelo Norteshopping e pelas suas abundantes opções (cinematográficas e outras). A Gumby passou por minha casa e lá fui eu, «zombiante», com uns quilos de sono nas órbitas.
Para mal da minha carteira, antes de irmos para o cinema, fomos passear pela French Narcotic Addictive Company. Como é costume, umas músicas vieram ter comigo, meteram conversa, palavra puxa palavra, a coisa foi-se desenvolvendo e lá as trouxe para casa. Purcell e uma colectânea de Ella Fitzgerald.
Sou muito susceptível a estes engates. Viram-se para mim e dizem: «Ah e tal, porque gostas de nós…», depois eu tenho que as comprar, e fico chateado, pois claro que fico chateado.
A seguir a estes percalços financeiros, lá fomos comprar os bilhetes: «Million Dollar Baby» de Clint Eastwood.
[nem vou escrever a tradução portuguesa porque até mete medo.]
Devo dizer que não estava muito interessado no filme (boxe, olhos negros e dentes voadores, pensava eu). Mas os críticos diziam o melhor possível (a «perfeição clássica», etc.), o público também e lá ganhou uns quantos Oscars (não que isto seja um selo de qualidade inabalável...às vezes até é o contrário).

Pois estava enganado, o filme superou largamente as minhas expectativas.
As actuações são quase todas de primeira água. Desde aquela mestria «sem esforço» por parte do Morgan Freeman à torrente emocional da Hilary Swank.
[prémios merecidos]
No princípio, a representação do Clint Eastwood deixou-me um certo desconforto. Uma figura seca, amarga, deslocada. Mas ao longo do filme, a personagem é aprofundada e comecei a compreendê-la melhor, não implicando isto que eu goste da personagem. Roubando as palavras do F. Pessoa, «Primeiro estranha-se, depois entranha-se».
No que toca à história, é simplesmente um murro no estômago. Na psique, aliás. Não quero dizer com isto que é um murro gratuito e sem significado. Todos saímos da sala com este sentimento visceral, um considerável abanão legado pela crueza da narrativa.
Não deixa de ser interessante reparar no modo como o Eastwood pega num tema polémico como a eutanásia. Não se apresenta como um seu opositor, mas expõe-na sem qualquer piedade ou sentimentalismo e quase descarna as personagens envolvidas naquele massacre da alma. E o facto de ele ser republicano só vem «ajudar à festa».
Lembro-me das «Pontes de Madison County», daquele amor impossível retratado de modo igualmente impúdico. Afigura-se como uma especialidade do realizador.
Até na fotografia se nota uma «sobriedade» considerável. Nada daqueles planos delicodoces que fazem chorar as pedras da calçada.
Resumindo, um óptimo filme. Áspero, mas belo.