segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Ella

Estava eu a passar os olhos pelos meus CDs para decidir o que ouvir quando o nome literalmente dourado de Ella Fitzgerald me sorriu.
Era um álbum que a Gumby me ofereceu há uns anos. Peguei nele e pu-lo a tocar.
Mergulhei quase de imediato nos anos 30 e 40 dos E.U.A.: os metais loose spirit das bandas de Jazz, as danças da altura, os carros, a sépia cobriu a minha imaginação. E aquela voz... Umas das que mais admiro no século XX.
Apesar de não ser grande conhecedor de Jazz ou da carreira da Ella, atrevo-me a dizer que a sua fase tardia é a melhor; pelo menos é aquela de que mais gosto.
Normalmente, a voz humana ao envelhecer, perde potência, brilho, surge um certo descontrolo na afinação e no volume, etc. Mas não no espantoso caso da Ella Fitzgerald: uma mulher que cantou profissionalmente cerca de 60 anos e que mantinha uma voz fenomenal no final da sua carreira, reforçada ainda com um curioso tom aveludado que o tempo generosamente lhe ofereceu.
Para além disto, penso sempre no seguinte: o milagre que é o facto de alguém que nunca teve qualquer educação musical formal revelar uma sensibilidade e mestria fora do comum. Uma voz educada, polida e cheia de subtilezas. Bastava ela fechar os olhos, cantar uma balada e derramar uns quantos sons capazes de magia.

Para além da beleza natural da sua voz, o seu autodidactismo tem muito mérito.
No entanto, há algo que me escapa, um fenómeno inexplicável...uma espécie de domínio congénito da arte musical, chamemos-lhe assim.
Há vários casos como Paul McCartney ou Mozart. Podemos apreciar ou não as suas músicas, mas há que reconhecer a existência de um dom inato, especial e intransmissível.
Como é possível que o P. McCartney não consiga ler uma pauta (assim como a Ella) mas seja capaz de compor, orquestrar, tocar guitarra, piano, etc.?
Como é possível que o pequeno Mozart com 5 ou 6 anos tocasse cravo e violino, e compusesse música com uma perfeição que muitos adultos invejavam ter?

Mozart aos 6 anos

A explicação para este jorro de música que lhes corre nas veias está fora do nosso presente alcance racional. É miraculoso.
Termino com uma bela imagem de Ella Fitzgerald dada pelo pianista Jimmy Rowles:

"Music comes out of her. When she walks down the street, she leaves notes."

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Demokratía

Um novo ciclo começa. Ocorreu uma mudança considerável no panorama político português, algo há muito esperado pela maioria do povo português, eu incluído.
Uma das coisas mais importantes a salientar nestes tempos pós-eleitorais penso ser a, ainda que tímida, descida da abstenção. É um sinal de saúde e vitalidade democráticas que eu não estava à espera. Orgulho-me particularmente do Porto que, salvo o erro, teve a mais baixa percentagem do país, rondando os 30%. Uma queda de 4% relativamente às últimas legislativas.
Tinha a ideia de que havia hoje em Portugal um sério e preocupante détachement na relação votante/votado e que o voto era encarado mais como um dever do que como um direito. Pensava que havia uma tendência quase invertível: o desinteresse generalizado pela política. Enganei-me, e ainda bem.
As pessoas foram de facto mobilizadas para votar. Ouvi anteontem alguém do painel de comentadores da RTP a justificar em parte este fenómeno com base no apelo «dramático» feito pelo Presidente da República no sábado à noite. Apesar de ter sido um contributo importante, quero antes acreditar que algo mudou efectivamente nos eleitores, que o «adormecido acordou», que o espírito democrático está bem e recomenda-se.
Alegra-me muito esta participação popular reforçada. Veio dar um forte abanão na ideia pré-concebida de que tal fenómeno iria favorecer a direita. Pois como se viu, não o fez.
Dei comigo a pensar nos últimos dias de campanha sobre a importância das sondagens, o seu papel inerte mas poderoso nas intenções de voto.
Até que ponto uma sondagem não deturpa o original princípio democrático?
Ou seja, falamos nos dias que correm no conceito de «voto útil», algo que penso que estava ausente da Demokratía da antiga Grécia.

«Democratas» - Pormenor de um vaso grego

Então estamos a votar em quem queremos ou em quem devemos? Pathos ou Logos?
Não é estranho que tenhamos de prescindir das nossas reais intenções em virtude de uma opção «útil» que a nossa consciência nos aponta?
Talvez me tomem por ingénuo ou lírico por estar aqui a retratar o acto de votar como esta coisa simples na qual votamos em quem queremos.
É claro que não sou. Apenas retirei a complexidade inerente a este assunto para questionar o seguinte facto: não nos estamos infelizmente a afastar do primórdio democrático helénico, o da «vera» representação dos nossos interesses?
E há mais!...o nosso sistema permite a existência de listas onde figuram candidatos que pouco ou nada têm a ver com o Distrito no qual se apresentam. Estes deputados vão representar os interesses dos eleitores daquela região, o interesse nacional ou o do seu rebanho partidário? Este último é o que normalmente domina e, por vezes, contra os dois anteriores. Temos sempre casos anormais como o «Caso Limiano», mas isso já são outras conversas.
Apesar de, como disse, estar optimista e contente com esta viragem, não partilho da euforia colectiva que sinto por aí fora. Espero que o neo-«filósofo» do PS faça um bom trabalho, que tome medidas difíceis mas fulcrais, que «mexa» em interesses instalados, que melhore sistemas vitais como a justiça, a saúde e acima e de tudo, a educação – o nosso calcanhar de Aquiles.
O povo deu-lhe a maioria absoluta para que ele tivesse o poder de desassombradamente executar reformas urgentes para o nosso país. Se ele vai governar com a reeleição em mente, então estamos mal servidos.
E quanto à maioria absoluta: mesmo não me relacionando bem com conceitos absolutos (sejam eles quais forem), penso que o PS não vai descambar e começar a ter frequentes emanações de carácter ditatorial como alguns temem, longe disso.

Para já, dou ao Sócrates o benefício da dúvida, e tenho confiança em que ele irá formar um governo competente e estável. Mas não vejo nele nem um mago nem um «salvador da pátria». Não gosto e acho que nunca gostarei de Messias, sejam eles religiosos ou políticos. Gosto do de Händel e já é uma honrosa excepção. :P

Ouvindo: Sonata D.959 de Schubert, com András Schiff ao teclado. Estupenda. O 2ºandamento é fantasmagórico, contrasta com o último: o sorriso em música.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Lições das Trevas

No seguimento destes dois últimos posts mais virados para o papel da religião na vida dos homens, dei comigo a (re)pensar numa aparente disparidade do meu carácter.
Apesar de não ter qualquer religião a habitar os meus dias e de ser um agnóstico convicto, a música que mais me toca é de facto a religiosa. Aliás, devo corrigir, é a música de inspiração religiosa. Há diferenças, convenhamos.
Existe claro muita música que atinge cumes de perfeição e que não possui uma relação directa com o fenómeno do divino, pelo menos aparentemente.
Mozart é um compositor onde abundam esses exemplos…aquele sentimento doce, sublime, apaziguado e triste que, segundo Peter Schaffer (autor da peça «Amadeus»), só é passível de se descrever usando o próprio nome do compositor.
[Aproveito para recomendar o filme «Amadeus» de Milos Forman. É um bocado fantasioso em alguns aspectos históricos, mas é sem dúvida muito interessante.

]

Lembrei-me disto porque estava a ouvir as Leçons de Ténèbres de Couperin. São peças muito intimistas e despojadas a nível instrumental: voz de soprano, um cravo e uma viola da gamba. (avôs do piano e do violoncelo, respectivamente).
No séc. XVII, havia a tradição de se cantar estas Lições (ou Ofícios) das Trevas na véspera da sexta-feira santa. Estas de Couperin foram especificamente escritas para as clarissas da Abadia de Longchamp, nos arredores de Paris, para aí serem executadas diante da nobreza que lá afluía com gosto.
As melodias são de uma pureza angelical, escutá-las é uma sensação etérea, mesmo com o burilado típico do barroco francês. Obras-primas do género.
Convém aqui fazer a distinção entre uma contemplação inspirada pelo Divino e o fervor ou êxtase religioso (do qual tenho bastante receio, devo dizer). O que quero dizer é que a religião não inspira só músicas «suavezinhas».
Bach, por exemplo, nas suas missas e cantatas usa ritmos bastante empolgantes, populares, militaristas até.
E há o exemplo quem me vem logo à cabeça: os Dies Irae de quase qualquer Requiem (à excepção do de Fauré, talvez). A tradução literal é «Dia de Ira» (faz lembrar aquelas descrições do antigo testamento…Deus, irado, destruindo Sodoma e Gomorra com uma chuva de enxofre em brasa).

«A Destruição de Sodoma e Gomorra» de John Martin, 1852

Os Dies Irae de Mozart e Verdi são provavelmente os melhores exemplos: música digna do Apocalipse, furiosa, selvagem. O de Verdi chega mesmo a ser violento…quase se podia catalogar como o heavy metal da música clássica. lol
E com esta me vou. :P

domingo, fevereiro 13, 2005

Eleazar

Eis-me de volta ao meu blog, qual Lázaro vindo do reino dos mortos.
Infelizmente, já cá não escrevia há quase um mês. Peço desculpa à pequena mas preciosa comunidade que me lê (principalmente ao FP que me alertou para o estado mortiço do meu blog). Tal lapso foi-me transcendente pois fui retido por forças obscuras e vastamente superiores às minhas: os exames da faculdade.
O alívio que sinto depois de dois meses de alienação é indescritível. Só o facto de poder dormir sereno já é uma dádiva impagável.
Não foi uma vida muito interessante nestes meses, apesar de ter observado uns quantos fenómenos raros. Ainda há uns dias «vi claramente visto» quatro velhotes nas suas sextas ou sétimas décadas a passearem na Av. do Brasil à tarde dentro de um Clio de última geração, vidros abertos, abundante sorriso nos lábios, óculos de sol, bonés acinzentados na cabeça e a ouvir a Nova Era!, é uma visão indescritível. :P
Mudando de registo...
Estava agora a pensar no dito Lázaro, nome que vem do hebraico Eleazar e que significa mais ou menos «Deus é a minha Ajuda». Por curiosidade, fui procurar na Bíblia a narração da ressurreição de Lázaro (sim!, eu!, o agnóstico cáustico!, na bíblia!).
Dei por ela no evangelho de S.João (XI, 1-45).
[já agora aproveito para recomendar a leitura da parte final deste livro sagrado: o sensacional «Apocalipse do Apóstolo S.João», um texto do outro mundo.]

«A Ressurreição de Lázaro» de Nicolas Froment, 1461

Ao lê-la, dei por mim um pouco espantado com a descrição do choro de Jesus pela morte do seu amigo de Betânia.
[Jesus a chorar?!]
Não tenho nada contra o choro, pelo contrário. Mas é um acto tão humano que não pude deixar de ficar surpreso. Isto porque a ideia que me incutiram nos quatro anos de catequese que tive foi a de que o Jesus era um «homem», mas sobretudo um ser perfeito, um Deus (um paradoxo que não é facilmente resolúvel).
Como pode um Homem ressuscitar um seu semelhante já morto?
Como pode um Deus chorar?
Há uns tempos ouvi uma frase interessante que dizia mais ou menos isto:
«Aquilo que os cristãos mais dificilmente vêem em Jesus (a sua humanidade) é o que salta mais à vista a um ateu, e o contrário é também verdade. Ou seja, aquilo que os ateus mais relutantemente admitem em Jesus (a sua divindade) é a base da crença cristã.»
Reparem bem...«crença cristã»...acreditar em Cristo, crer na sua identidade divina (visto que a parte humana todos damos por adquirida).
Mas será que damos?
Teremos mesmo presente o conceito da mundaneidade de Jesus Cristo?
Que ele ouvia anedotas, «partia-se» todo a rir e também as contava aos amigos?, que ele comia, que podia cozinhar?, quais os pratos de que gostava mais ou que lhe causavam azia?, e ele arrotava?
Ele gostava de jogar, fazer desporto ou apostas com os comparsas? Fazia «braços de ferro», competia?
Dançava?, cantava?
Amava alguém em particular? Apaixonou-se alguma vez?
Isto são só suposições (provavelmente algumas até descritas nos Testamentos, de que não sou grande conhecedor) e esta última está particularmente na berra com todas estas teorias sobre Maria Madalena: Códigos DaVinci e por aí adiante.
Gostava de ouvir um cristão «praticante» opinar sobre isto.
Esta suposta relação com uma mulher choca-o?
Talvez alguns até digam que não. Mas se depois lhes perguntar se imaginam o JC a fazer sexo com alguém, devem ficar incomodados com o que responder, ou então, no pior dos cenários, optam por rotular esta pergunta de blasfema e as suas mentes iradas despoletam um discurso com vista a moralizar este vosso herético interlocutor.
Prefiro olhar para Jesus como um Homem iluminado, muito à semelhança de Buda, do que tê-lo como um Deus feito homem, mas que nunca foi imperfeito, que visceralmente nunca se humanizou.

Ícone Ortodoxo (Sofrino, Rússia)