sábado, janeiro 22, 2005

Oath

Anteontem, dia 20 de Janeiro, dia de São Sebastião, dia de anos do meu pai e dia oficial do Juramento Presidencial nos E.U.A.
Devo dizer que não tinha intenções de ver o que quer que fosse sobre este último acontecimento, mas lá calhou… os meus dedos andavam entretidos a fazer zapping, na SkyNews estavam a falar sobre isso e fiquei um bocado a ver.
Passados uns minutos repetiram a dita jura que termina com a hiper-americana frase «so help me God». Não sei porquê, mas momentaneamente aquilo causou-me uma certa «indisposição» estomacal.

Como é que no séc.XXI, numa sociedade ocidental (pseudo)laica com um governo republicano, num juramento solene de uma cerimónia de estado podem ser usadas referências religiosas?
Não aprendemos nada ao longo destes séculos?, que da miscigenação entre Estado e Igreja advêm problemas, conflitos graves?
Vejo como das coisas mais fundamentais a separação sempre vigilante (!) entre estas duas instituições. Até pode ser que eu seja muito anti-clerical, mas isto aparece diante dos meus olhos como uma opinião racional e não como um juízo pessoal de valor.
Segundo fui investigar, o juramento presidencial norte-americano permanece inalterado desde o século XVIII, quando em 1789 foi empossado o general George Washington em New York.

Ei-lo:
«I do solemnly swear that I will faithfully execute the Office of President of the United States, and will try to the best of my ability, to preserve, protect and defend the Constitution of the United States.»
Ao acabar a frase, o 1º presidente adicionou-lhe as palavras «so help me God», criando uma tradição na qual quase todos os presidentes têm repetido as mesmas palavras, alterando o estipulado pela lei no Artigo II, Secção 1 da Constituição.
Pelos vistos é quase uma infâmia nacional se o presidente eleito as não disser.
Já para não falar nos formatados finais de discursos políticos: «…and God bless America», na maiusculizada divisa no topo das notas de dólar: «IN GOD WE TRUST», nos juramentos das testemunhas em tribunal, com a mão sobre a bíblia (assim como no juramento presidencial!): «…so help you God?» e na famosa «Pledge of Allegiance»: «one nation under God».
Como é que isto acontece no país mais multicultural do mundo?, onde há todas as religiões e credos?
Como é que um ateu jura num tribunal?
Ao depor, uma testemunha judia rejeita a bíblia?
Um budista se for presidente acaba o juramento com «…so help me Buddha»?
Que palhaçada!

terça-feira, janeiro 11, 2005

Emplastro Silva


Boas notícias!
O PPD-PSD parece ter chegado a acordo quanto ao substituto do lendário economista de Boliqueime.
Ei-lo, senhoras e senhores, o D.Sebastião da «social-democracia» lusitana, o Emplastro Silva!

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Vertigem

Finalmente! Ao fim de umas semanas a resumir matéria (com uma gripe pelo meio) e de 3 penosos dias encafuado em casa a empinar tudo na minha tola, o martírio acabou.
9h45-11h45, Praça dos Leões, exame de Histofisiologia Animal.
Duas horas a jorrar carradas de letras para cima de um inocente papel branco. Acho que me correu bem, mas o que importa mesmo é o facto de ser um obstáculo ultrapassado. Já não podia mais ouvir falar em epitélios, ver setas de mecanismos fisiológicos e relacionar acções hormonais. Devo dizer que ainda estou um bocado alterado: se vejo um papel com uma palavra tipo «conjuntivo», apetece-me pegar-lhe fogo.
De tarde para ocupar o verdadeiro primeiro tempo livre desde há duas semanas, decidi ver um DVD que me ofereceram na altura do aniversário do JC (vulgo Natal).
Vertigo de A. Hitchcock numa versão restaurada (dois anos e US$1.000.000 depois!).
(Tradução portuguesa: «A mulher que viveu duas vezes». lol
Diga-se o título nem é assim tão despropositado, ao contrário de alguns que por vezes até nos magoam a retina.)

Filme genial. A profundidade psicológica é das maiores que vi num filme de Hitchcock, mesmo para além da já esperada. Não é por acaso que há a opinião mais ou menos consensual de que esta película é a obra-prima do realizador.
(estou a pensar…também só vi para aí meia dúzia de obras dele :P)

O desenrolar da história, a narração silenciosa das imagens (o «cinema puro») e todas as personagens apontam para um desfecho na esfera do sobrenatural. Ingenuamente fui também para aí levado.
Quase no final do filme, a Razão surge do nada, qual Deus ex machina que intervém e nos salva a todos (espectadores e elenco) daquele mergulho voluntário num pântano irracional.
O filme passa-se em San Francisco no fim da década de 50. Devo dizer que fiquei surpreendido pela positiva, tenho agora uma imagem de uma cidade muito mais atraente em termos culturais e também de beleza natural.
O James Stewart tem uma interpretação espectacular como detective acrofóbico e doentiamente apaixonado pela «dupla» Kim Novak, loira como não podia deixar de ser.


Gostava de saber se há alguma explicação para esta panca do Hitchcock pelas «donzelas» platinadas…Grace Kelly, Janet Leigh, etc. Sim, são mulheres muito bonitas, mas porquê loiras, sempre loiras?! Enfim…mais psicologia.)

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Quand j'étais amoureux

De Tarde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde, 1887



Femme à l'ombrelle de Claude Monet, 1886

sábado, janeiro 01, 2005

Bio

Bom Ano Novo.
Já há uma semana que não faço um post. Estudar tem-me afastado daqui, infelizmente.
Nestes dias estive com gripe. A febre já passou, mas ainda não estou a 90% (a 100% acho que nunca estive. :P)
Por causa disto, não pude ir hoje à «Vernissage chez Jão», a mais badalada festa da temporada social. Tenho pena de não ir, pois ia ser muito porreiro, de certeza. O mais triste de tudo é que privei as papilas gustativas do pessoal de saborear o lombo que lhes prometi levar para o reveillon. Hélas!
Mudando de assunto.
Noutro dia, a estudar histo-fisiologia, deparei-me com um fenómeno simplesmente fantástico na circulação sanguínea. Achei aquilo do outro mundo, apesar de ser apenas uma particularidade.
Como sabem, estou a estudar para ser um dia biólogo.
Gosto do que estudo, mas porquê? Porquê gostar de Biologia?
Será possível objectivar as razões ou prende-se apenas com gostos pessoais?
Apesar de optar pela segunda hipótese, vou tentar explanar este meu paladar.
Há várias justificações para se gostar de biologia. Quando se refere a palavra, a ideia que pelos vistos surge na generalidade das mentes, é a de programas de vida selvagem (BBC e afins) com apresentadores vestidos com uns «camuflantes» trapos bege de safari africano, grunhindo umas postas num inglês indecifrável (i.e., Sir David Attenborough & Ca., Ltd.). «Programas de bichos».

Isto é uma visão redutora. Estão a retratar uma ciência extremamente vasta através de um dos seus ramos, o estudo do comportamento animal – a Etologia.
Toda a gente acha muita piada às relações mãe/filhos, às caçadas leoninas, aos infinitos rituais de acasalamento que há no reino animal, etc. Sim, eu também gosto de ver esses programas, mas a ciência da vida não é só isso.
Interesso-me pelas acções dos organismos vivos, mas sobretudo do ponto de vista morfo-fisiológico. Por outras palavras, adoro compreender a sua estrutura, a sua maquinaria e as suas funções.

A Vida é um milagre.
Por mais batida que esta frase esteja, continua verdadeira e resume todo o fascínio que esse fenómeno natural provoca em nós.
Catalogamos a Vida de «milagre» por ela ser misteriosa, incompreensível no seu âmago, numa palavra, transcendente.
Para mim, é a ligação mais directa que tenho com o transcendente, com o divino – com aquilo que ultrapassa o nosso entendimento. Convém aqui dizer que até poderei acreditar num princípio «organizador» do Universo - um demiurgo – mas não num Deus figurativo, personificado.

Deus in «A Criação de Adão» (no tecto da Capela Sistina) de Michelangelo

É claro que outras áreas como a Matemática, a Física e a Química também abordam «o divino» à sua maneira.
A matemática nasceu a partir da observação da natureza, da sua quantificação e abstracção.
(Noutro dia fiquei a saber de umas conferências no departamento de matemática da F.C.U.P. sobre a raiz desta ciência – a observação.
Por exemplo, um cubo existe mesmo na natureza, ou uma esfera, ou uma linha, ou um ponto? Não serão abstracções da realidade, ideais expressos por fórmulas matemáticas, objectivando um subjectivo, aperfeiçoando um imperfeito? Será que, em termos ultra-rigorosos e absolutos, podemos ter algum caso natural em que 1+1=2? Haverá duas unidades iguais entre si? Mesmo átomos?
Enfim…filosofia.)
A física é também muito abstracta, mas não tão pura como a anterior. Será uma explicação quantitativa (matemática) e qualitativa (entrada do factor relativo, teórico, humano) de fenómenos da matéria.
Ao dar-se a passagem para a química ainda mais subjectividade entra no método científico, nas palavras de alguns, a ciência fica mais mole. Isto é fácil de compreender se olharmos para esta disciplina como o estudo do comportamento da matéria, uma espécie de psico-sociologia dos átomos.

Repare-se que a matemática é maior e vacinada, independente, não se apoia em nenhuma outra ciência. A física já não, pois tem o seu pilar na matemática, e a química é suportada pela física e pela matemática.
Chegamos pois à biologia, ainda mais subjectiva, uma ciência que se baseia em todas as anteriores, o que torna a análise de fenómenos biológicos muito mais difícil e complexa, ao contrário do que à superfície pode parecer à maioria.
Por exemplo, a explicação aprofundada de um fenómeno fisiológico é muito mais elaborada de que a de o movimento de um sólido. Temos de recorrer sempre à matemática, à física e à química, jogando atentamente com todas as suas variáveis.
Bem, vou parar com esta divagação, já me estou a alongar.
Tudo isto para dizer que um dos aspectos que acho mais extraordinário na vida não é só o estudo das suas múltiplas formas actuais, mas a problemática da sua origem. Ou seja, a passagem de matéria desorganizada (morta) a matéria organizada, a um organismo, a Vida. Como é que isto aconteceu?

Protozoário

Sim, há várias teorias explicativas: Oparin, Haldane, Woese, Margulis, etc. Mas isso não lhe retira a magia.
Os primeiros dois defenderam que a partir de gases atmosféricos como metano, hidrogénio, amoníaco e água foram sintetizadas as primeiras moléculas orgânicas simples como açúcares e aminoácidos (a célebre «sopa primitiva») e estas por sua vez polimerizaram, formaram agregados moleculares independentes (coacervados) que evoluíram para organismos vivos. Hoje a teoria deles foi revista e um pouco modificada.

Diagrama da Hipótese de Oparin-Haldane

Existe também a ainda debatida hipótese panspérmica que afirma que a vida teve origem extra-terrestre: células chegaram à Terra em meteoritos e aqui evoluíram. Ainda há uns tempos, dois cientistas da universidade de Leiden submeteram endósporos (formas de resistência bacteriana) de Bacillus subtilis a baixas temperaturas, radiação UV e vácuo, simulando o ambiente espacial. Segundo eles, estes esporos sobreviveriam milhões (!) de anos no espaço, e.g., numa nuvem molecular inter-estelar.
Ah, esqueci-me…ainda há a hipótese hebraica dos sete atarefados dias do Deus criador, mas quanto a essa teoria não me vou pronunciar.

Pormenor de «A Criação do Sol e da Lua» (o 3º dia) de Michelangelo

Seja lá como for, o aparecimento da vida é das coisas mais intrigantes que existem.
Perceber como é que um conjunto de moléculas inanimadas se agregaram, organizaram-se e evoluíram ao longo de milhões de anos até se tornar em seres incrivelmente complexos como nós. E tudo fruto do acaso!
(Esta do acaso também dava para uma longa dissertação.)
À medida que avanço nos meus estudos, cada vez mais me apercebo da existência de uma «ordem» implícita ao Universo, algo de transcendente.
Uma ordem patente nos sistemas biológicos, nos mais ínfimos pormenores dos seres vivos, na perfeição dos seus desenhos anatómicos sempre prontos a adaptarem-se ao longo de milhares de anos, nos intrincados e magistralmente concebidos sistemas fisiológicos, nos admiráveis e inconscientes comportamentos inter-actuantes, etc. Até no equilíbrio espantoso que a Ecologia nos revela. Tão espantoso, tão genial que parece ter a mão de alguém ou de algo por detrás.
Terá? ou Será tudo realizado pela mão do acaso, um divino Acaso?