sábado, dezembro 25, 2004

Natal na Senra

Natal. As melhores recordações que tenho de miúdo são desta época.
A imagem que os meus olhos de criança guardaram na minha mente é a de dias glaciais com sentimentos quentes.
(inevitavelmente, quando repesco estas memórias, um sorriso espreita na minha boca.)
Sempre passei esta data na casa do meu avô, em Lara, uma aldeia minhota a poucos quilómetros da fronteira com a Galiza. Todos os anos, somos cerca de 15 a 20 pessoas a consoar: avô, filhas, maridos, netos (eu, o mais novo). Até há uns tempos, o meu tio-avô e a minha bisavó estavam também connosco.
(o último Natal dela foi extraordinário, ela tão feliz, cantou, dançou. no dia de Reis faria 99 anos, mas não chegou a festejar o aniversário.)
Lembro-me... dia 24 à noite foi sempre uma confusão: travessas de bacalhau, polvo, batatas cozidas, grelos e couve sobrevoavam atarefadamente a minha pequena presença, como se naves fossem.
Muito «barulho»: ordens, contra-ordens, sugestões, comentários, anedotas, conversas, avisos, repreensões…uma algazarra.
Doces a perder de vista: bolo-rei, pão-de-ló, rabanadas, sonhos, pastéis de chila, aletria, pudim. Pinhões, nozes, avelãs, uvas passas. Chocolates. Eu sei lá que mais.
O presépio feito pela minha tia Jita, figuras de barro, madeira e musgo.
Prendas: no quarto do meu avô, os meus primos e eu aguardávamos impacientemente pela meia-noite...a pseudo-chegada do «pai natal».
(convém aqui dizer que nunca acreditei na dita personagem, visto que os meus pais nunca cultivaram em mim a crença no barbudo nórdico e no seu séquito de cervídeos voadores)

Entretanto, os meus pais e os meus tios desimpediam a sala e colocavam 6 cadeiras em fila com os presentes de cada um. Éramos então chamados à sala, atacando de imediato as indefesas cadeiras. Bons tempos.
Entretanto crescemos, e depois era «só» dinheiro. Por um lado, é óptimo porque nos permite escolher as nossas prendas, mas por outro, é um ritual um pouco seco.
Após isto, íamos lá para fora - encarando um gelo petrificante - começar a fazer uma enorme fogueira, isto sempre que o tempo permitia. Ainda fazemos isto. Nos últimos anos temos tido sorte: não tem chovido.
O meu avô costuma previamente colocar na eira um grande tronco ou raíz de árvore e mais uns quantos canhotos, e depois, ao longo da queima cada um vai adicionando a sua acha. Recordo-me… no meio da noite, percorríamos a quinta e íamos à procura de pinhas, faúlha e folhas de eucalipto para arder.
Aqui vai uma foto que tirei ontem à noite, com o pessoal encostado ao caniço; ainda se vê o verde do cipreste antes de arder. Há dois anos ou assim, a labareda chegava tão alto que quase tememos pelo carvalho grande (cujos ramos se vêm no topo da foto).
Ainda continuava hoje de manhã: brasas num suspiro de cinzas, escondidas timidamente nos ramos não ardidos.

Foi uma noite muito boa, que me tirou várias lembranças do armário: estas que vos falei, entre outras. Há agora novas memórias a cuidar: a minha prima Inês, com um ano e meio, contribuiu optimamente para isso.
E agora, antes de dormir, vou comer um bocado de aletria que trouxe de lá de cima, feita com insuperáveis ovos caseiros. :p

sábado, dezembro 18, 2004

Sex and Sensibility

Sim, estou a parodiar o romance da Jane Austen. Não quero denegrir a memória da dita senhora, apenas «trocadilhar» com o título daquela novela hiper-romântica (obviamente, entenda-se como romântico, característico do séc.XIX).
Nem sei bem porque me lembrei disto, achei graça.
Isto vem a propósito de pensamentos que tive noutro dia durante uma conversa cá em casa. Estava a relatar novos conhecimentos que adquiri por ter assistido a uma palestra sobre os cromossomas humanos, incidindo sobretudo nos sexuais.
Para quem não sabe, há dois cromossomas sexuais: o X e o Y; uma mulher é XX e um homem é XY, isto em situações normais.

No entanto, há casos raros em que um ser humano tem mais que 2 cromossomas sexuais, exemplos: XXY, XYY, XXX, XXXX. Todos estes sindromas têm o seu nome e características específicas associadas: infertilidade, homens com formas femininas, alterações cognitivas, etc.
O caso do triplo X é curioso: são as chamadas «super-mulheres» com um corpo tipo «Jessica Rabbit», mas com uma capacidade intelectual limitada. E se for um quádruplo X, ainda mais restrita é essa capacidade, o que parece sugerir que os cromossomas X excedentários levam ao retardamento mental.

No caso do XYY, os «super-homens», havia há uns anos a ideia de que eram homens violentos ou com tendências criminosas, visto terem sido encontrados presidiários (poucos casos) com esta anomalia. Ou seja, tudo apontava para que o cromossoma Y fosse responsável por uma vincada «irascibilidade de carácter». Hoje sabe-se que tal não é verdade.

Com isto fiquei a pensar nas características que empiricamente quase todos associamos aos 2 sexos. «Força» aos homens e «fragilidade» às mulheres. Com força, refiro-me não só à força física mas também de carácter, e até certo ponto, à brutalidade. E com fragilidade, estou aqui a incluir a noção de um espírito mais dócil, mais sensível (e por isso mais frágil; mais adiante falarei disso).
Não vejam este tipo de discurso como machista ou retrógrado, sou tudo menos isso. Estou só a falar de estereótipos que habitam o nosso inconsciente, ainda que sejamos hoje educados para os contrariar e atingir um equilíbrio entre sexos.
Com os movimentos de emancipação feminina, a mulher lutou pelos seus direitos (como ser humano, atenção!), mas ao fazê-lo entrou em territórios masculinos. Não vou defender que eles fossem sagrados, intocáveis e exclusivos dos homens. Mas é um facto que nos nossos dias as mulheres estão mais masculinas. Ou seja, as mulheres vestem-se, falam, trabalham, comportam-se aproximadamente como homens. Coisas que são hoje perfeitamente normais como calças, tabaco, desporto (nomeadamente futebol), automóveis, trabalhos físicos, lugares de chefia, enfim, vários hábitos de vida social e pessoal, não o eram há décadas atrás. Aquela sensibility romântica um pouco enjoativa patente nas múltiplas «donzelas abonecadas» que povoam os livros da já referida romancista inglesa está há muito a desvanecer.

Como consequência da masculinização da mulher, assiste-se agora a uma efeminização do homem. Hoje os homens tratam dos filhos, cozinham e executam várias tarefas domésticas e há um crescente culto da imagem pessoal: cabelo, roupa, cremes, perfumes e inúmeros tratamentos corporais – a badalada metrossexualidade, termo importado da Big Apple.
Esta designação tem sido aplicada a celebridades como David Beckham por usar brincos, anéis, colares, tratamentos faciais e do couro cabeludo, roupas extravagantes, etc.
Este fenómeno de moda (?) social é confundido com homo ou bissexualidade. Daí a frase ambígua, também nova-iorquina, «Gay is the new black». Aliás, temos agora um caso de estudo paradigmático na «televisão» – o «Condgi» J.C.B. Não vou dissertar sobre se o dito ser é metro, bi, homo, hetero ou uma outra qualquer catalogação ainda não inventada.
Ponto da situação: homens mais «frágeis», mulheres mais «fortes».
Questões: a sensibilidade é um traço eminentemente feminino?, a «brutalidade» é uma característica masculina?
Se o são, são fenómenos culturais ou são cromossómicos?
Repare-se que no mundo da arte há também aquele estereótipo de que há uma grande incidência da homossexualidade masculina – bailado, teatro, escultura, pintura, música, literatura, etc. «Artistas», num tom pejorativo. Ou seja, a sensibilidade é quase uma determinação, uma demarcação sexual.
Será verdade?! Será que um homem não tem direito à sua sensibilidade tanto como uma mulher?, de poder representar, dançar, cantar, esculpir, desenhar, fazer um poema, o que quiser, ou simplesmente fruir uma obra-de-arte? Um homem não chora, não se emociona, não é sensível, não é, neste sentido, frágil?
Na minha opinião, é.
E é-o, não como homem, mulher, hermafrodita, pseudo-hermafrodita, andrógino ou demais rótulos fixistas; é-o como Ser humano, acima de tudo.
É certo que há dissemelhanças entre sexos, e ainda bem: caso contrário, não haveria a complementaridade que preso. Que não se queiram esbater as diferenças que existem mesmo.
Aqui vai uma gravura de M.C.Escher, um dos meus pintores favoritos: bem mais ilustrativa de que uns redundantes quilos de palavras.

Bond of Union de M.C.Escher

domingo, dezembro 12, 2004

Smile

Ontem um amigo meu ofereceu-me bilhetes para ir ao Europarque ouvir o Remix Ensemble. Quando ele me disse que era Mozart, fiquei admirado, visto que aquela orquestra está sobretudo vocacionada para música vanguardista – Emmanuel Nunes e afins – o que não é bem o meu cup of tea.
O concerto chamava-se «Mozart à la Haydn» - advém do nome da primeira peça que foi tocada.
Quando os meu pais e eu chegámos ao auditório, avistámos uma «brigada do reumático» à entrada. Estávamos no Reino da Naftalina – odor característico daqueles casacos de vison ou marta, uma vez que muitos deles só vêem a luz do dia (ou da noite, neste caso) para aí de 2 em 2 anos e outros desde 1897, 1953 ou por aí. Enfim, um clã de VIPs (very invitable persons; :P).
Bem, lá entrámos no pequeno auditório às 22h, sem niguém nos pedir bilhete. Fantástico.
O programa era:
«Moz-Art à la Haydn» de Alfred Schnittke;
Concerto para trompete e orquestra de Joseph Haydn;
Suites nºs. 1 e 2 para pequena orquestra de Igor Stravinsky;
Sinfonia n.º 41 de W. A. Mozart.

Nunca tinha ouvido falar do Schnittke, um compositor russo (séc.XX) meio neo-clássico, meio contemporâneo.
Os músicos entraram, subiram para o palco. Estava toda a gente sentada em silêncio, e abruptamente, as luzes desligaram-se.
Do meio da escuridão ouviu-se o lamento de um violino, depois um outro apareceu. Os dois conversaram um pouco e o resto da orquestra, instrumento a instrumento, foi entrando: violetas, violoncelos, contrabaixos. O surrealismo do momento invadiu-me.
Quando todos entraram, a luz acendeu-se. A música continuava a fluir.
No final da peça, os músicos, ainda a tocar, começaram a movimentar-se, saindo do palco, cada um na sua vez. Ficou apenas o contrabaixista a suster uma nota. Ele levantou-se também, e heroicamente, transportou o bicho de madeira pelo tablado fora, sempre a tocar. Quando abandonou o palco, a peça acabou. Aplaudi voluntariosamente.
Devo dizer que gostei bastante, pela originalidade da música e pela teatralidade bem-humorada.
Seguiu-se o concerto de Haydn, agradável como sempre, entrou logo no ouvido. O jovem trompetista inglês (Gary Farr) portou-se muito bem, mesmo no periclitante 2º andamento.
As suites (imitadoras de danças populares) de Stravinsky tinham uma dose ligeira de humor e foram surpreendentemente leves.
[Aquelas sonoridades únicas dos russos…não as consigo explicar. Ouve-se, sente-se que é russo, mas não dá bem para compreender porquê.]

O auge da noite foi Mozart.
A última sinfonia que ele escreveu, cognominada «Júpiter» (o deus, não o planeta) é para mim mais interessante que a Sinfonia n.º40, essa sim, mais conhecida que o tremoço.
O primeiro andamento foi bem vivo. Suspeitei logo aí que o maestro inglês (Martin André) ia escolher tempos rápidos, como convém nestes nossos dias de interpretações «autênticas», bem mais apressadas e metálicas de que as idas interpretações românticas que dominaram o panorama da «clássica» até por volta dos anos 80.
O segundo andamento foi, para mim, demasiado rápido. O que vejo nesta música é aquela angústia lenta e adocicada tão típica de Mozart, não aquela velocidade desnecessária.
O terceiro andamento foi porreiro, mas o último superou mesmo as expectativas.
Foi uma coisa do outro mundo. Diga-se que a peça não precisa de uma execução extraordinária para ser entusiasmante, pois já por si é um colosso pirotécnico: Mozart põe na coda a orquestra a tocar 5 melodias ao mesmo tempo e tudo em perfeita harmonia - um verdadeiro fogo-de-artifício.
Foi um espectáculo, o maestro imprimiu uma vitalidade contagiante. Via-se mesmo que ele estava a delirar com aquilo, e eu também. Ele já estava com aquele rosado facial característico dos britânicos, mas ainda acentuou o rubor porque gesticulava, saltava, fazia caretas e trauteava (!) com um vincado êxtase físico. Só faltou ele fazer rodas, cambalhotas, pinos e duplos mortais em cima do palco. Bestial.
[É espantoso como é que Mozart nos últimos meses de vida, numa altura em que ele estava sem dinheiro, com dívidas, doente, com problemas emocionais (em suma, numa fossa), conseguiu produzir várias obras-primas com uma qualidade genial e de uma alegria esfuziante, entre as quais está esta derradeira sinfonia. É uma grande lição.
Foi das maiores tragédias musicais da humanidade, este homem ter morrido com apenas 35 anos.]


Wolfgang Amadeus Mozart

O meu coração batia mais depressa, eu estava a acompanhar a música com o corpo, e quando acabou, um «Bravo» fugiu dos meus lábios.
Bati palmas entusiasticamente e levantei-me quando o maestro regressou ao palco.
O que me irritou foi olhar para trás e ver aquela cambada de perucadas senhorecas a sorrir estática e afectadamente com um leve acenar aprovador, exibindo as suas duplas dentaduras postiças cor de açafrão, e a aplaudir com um ar de frete copioso.
Se elas não apreciam a música, então não venham só por que fica socialmente bem e para exibir os seus casacos de sexagenárias e putativas marquesas.
[como eu adoro termos ambíguos! :p ]
Depois ao vir para casa, vim pacificamente no carro a ouvir Norah Jones. Ou seja, foi uma óptima noite musical, e que continuou hoje de manhã: acordei a ouvir a música Smile do Charles Chaplin, aquele tema nostálgico que aparece no filme Modern Times.
[o sorriso entrou no meu ouvido e logo correu para a minha boca]


Modern Times - Parte da cena fabril

Ele era o homem dos milhentos ofícios: na grande parte dos seus filmes ele foi simultaneamente actor, realizador, produtor, escritor, argumentista, compositor e sabe-se lá que mais. A quem ainda não viu o filme, recomendo-o vivamente. A quem já o viu e gostou, vale sempre a pena rever o «eterno vagabundo».
Enjoy.


Modern Times - Plano final

sexta-feira, dezembro 10, 2004

N.º15 Opus 28

Estava a tocar Chopin, aquele Prelúdio da chuva.
De repente, não sei como… o mar transbordou.
Choveu.
Senti sal na minha boca.

terça-feira, dezembro 07, 2004

Uma no Cravo, outra na Ditadura

Ontem, após as aulas da manhã no Botânico, a Gumby levou-nos no seu C3 para os Leões. Estávamos bastante «sóbrios», ou seja, não aconteceram fenómenos sobrenaturais como levitações. [private joke of the Puredo]
A Gumby estacionou no parque dos Clérigos e ao sair eu disse que precisava de ir à Biblioteca Musical (logo ali ao lado) ver algo que vislumbrei noutro dia ao passar pelo dito estabelecimento abençoado.
Esse algo que vi foi um Cravo – um avô do piano.
O piano (abreviatura pelo qual é conhecido hoje em vez do nome relambórico) só apareceu por volta de 1710 pela mão de Bartolomeo Cristofori com o nome de Gravicembalo col piano e forte. Ou seja, conseguia tocar notas piano e forte. Até a esta data, não era possível, uma vez que o cravo tem bicos que picam literalmente as cordas e o seu sistema não permite alteração na intensidade de um som, mesmo tocando com mais força. O piano permite-o, foi esse o grande avanço.

A primeira vez que toquei cravo foi este ano em Viena, no museu de instrumentos musicais que está instalado no Neue Burg, um dos últimos edifícios da capital a ser construído nos dias do Império Austro-Húngaro.

Neue Burg

Estão a ver aquela varanda, foi dali que Hitler proclamou a «anexação» da Áustria em 1938 – o célebre Anschluss. (É de lembrar que a Áustria não foi invadida: foi anexada. Ou seja, o ditador foi até bem recebido na capital pela maioria dos seus conterrâneos. Sempre que penso nisto, até me dá a volta ao estômago.)
Estava eu a percorrer os múltiplos corredores cheios de instrumentos, muitos de corda (Stradivarius, Guarneri e mais pessoal, quase todos de Cremona) e alguns de sopro. Estava a achar a colecção muito impressionante, mas quando cheguei aos instrumentos de tecla, atingi o nirvana. Delirei com aquilo: nunca vi tantos pianos, cravos, órgãos, espinetas, clavi-órgãos, pianos-girafas e demais aberrações. Tudo quanto é possível imaginar com teclas estava lá. Estava no Éden.

Cravo de J.Dulcken, 1745. (um dos que estava no museu)

A dada altura, reparei num pequeno cravo (ou clavicórdio) italiano do séc. XVII que estava lá, com uma réplica ao lado. O original estava protegido com acrílico, mas o «sósia» estava acessível. Fiquei palerma com aquilo. Li a legenda ao lado, mas estava tudo em alemão, que infelizmente não falo. Apenas percebi as palavras «novo instrumento» e «tocar».
Ganhei coragem e fui pedir à vigilante com frontispício seráfico para que me traduzisse o que lá estava escrito. Ela até nem era antipática e com um inglês muito carregado disse-me que no texto «se convida os visitantes a tocar». Devo ter ficado literalmente boquiaberto.
Não estive com meias medidas: ataquei de imediato o teclado. Bach. Os sons barrocamente coloridos do cravo ressoaram pelos salões imponentes e marmóreos do palácio. Foi um momento espectacular para mim, mesmo não tendo tocado muito bem; não há grande mal: não estava lá muita gente. :P
Houve pessoas que ouviram e vieram ter ao salão, com um sorriso prazenteiro e generoso na cara, o que para mim foi mais do que «bom». Apareceu uma rapariga italiana que me perguntou com o olhar se se podia tocar. Acenei-lhe que sim com a boca. Ela começou a tocar e eu continuei a visita.
Manhã estupenda.

E nesta segunda-feira lá toquei um bocado à frente do pessoal da faculdade.
(O Citrus falou hoje em tentáculos pelo teclado fora. Lol)
Foi porreiro, apesar de o cravo não estar muito bem afinado. Dadas as circunstâncias, não toquei muito mal, visto que as teclas de um cravo são bem mais pequenas de que as de um piano e também porque a técnica de tocar cravo é um pouco diferente. Mas gostei muito.
Agora só me falta experimentar um grande órgão de tubos numa igreja.
Sim, daqueles à la ambiente fantasmagórico.
E aqui vai uma foto tirada algures na baixa portuense numa manhã de segunda-feira.
:)

domingo, dezembro 05, 2004

Infância

“Como vulnerável infante (tardio, pois sou agora socialmente um adulto), sinto-me aos apalpões num quarto escuro ou talvez demasiado claro. Estou meio cego, não sei se por falta de luz, se por tê-la em demasia.
É isto verdadeiramente viver? Ou «crescer»?
«Cresço», «estico» o meu ser demasiado rígido. Como dói! Mas ao crescer, verei outras paisagens, estarei com outra «altura», terei outro campo de visão. Choro porque custa endurecer a minha própria pele, agora que deitei a minha carapaça fora. Estive tanto tempo no casulo, que agora sinto ainda as minhas asas a abrir, arrepio-me. Estou dorido, mas pronto para o voo. Para onde me levam os zéfiros que me abanam, não o sei... mas como vejo milhões também a voar, quero seguir para o céu como eles.
E o tempo? Será ele um amigo ou um traidor? Sei apenas que ele é sarcástico: tem as respostas, mas só as dá quando quer e quando, por vezes, já não nos são úteis no seu proveito máximo.”


Isto é um excerto de um texto que escrevi há mais ou menos dois anos, numa altura em que estava mergulhado num mar revolto de dúvidas intermináveis que me assolavam sem piedade - fase pela qual muitos passam, uns mais de que outros.
Lembro-me claramente da sensação de não querer crescer, de me sentir uma criança num corpo de «quasiadulto», de portar uma nostalgia dos meus dias de infância, de tanto os querer de volta.
Toda esta poeira saiu de baixo do tapete, porque vi ontem o «Sen to Chihiro no kamikakushi» do japonês Hayao Miyazaki (aka «A Viagem de Chihiro», lol). Já tinha visto o filme, e fiquei outra vez numa espécie de estado de regressão à minha infância.

Não sei bem porquê, mas aquele filme transporta-me para há uns anos atrás. Não sei se é por ser japonês (o meu imaginário infantil está ligado a muitas personagens japonesas) ou pelo tipo de desenho (o homem foi um dos criadores da Heidi, que nem é do meu tempo).
O filme no início é um bocado «lento», nos diálogos e na maneira como é filmado, mas não propriamente no desenrolar da história. Como adulto, irrita-me um pouco, mas se o vir como criança (do pouco que ainda resta em mim), agrada-me e ajusto-me completamente ao espírito do filme.
Diga-se que a música ajuda bastante, sobretudo a do genérico final – que me traz memórias que não tenho – composta e cantada pela japonesa Youmi Kimura. Mal acabou o filme fui directo para o piano para descobrir a melodia.
Há uma candura, uma simplicidade muito características da infância e que o Miyazaki evoca magicamente. A inocência que é própria de uma criança (ainda que possa ser desagradável para um adulto) é quase palpável no filme e parece genuína. (será que o Miyazaki ainda é uma criança?)
Para mim a grande diferença que há entre a pureza de uma criança e a de um adulto é que a primeira é límpida na sua génese. Ou seja, não resulta de uma depuração, não parte da simplicidade para a complexidade e de volta à simplicidade – o que nós adultos fazemos.
Muitas vezes nos adultos, a inocência é confundida com ignorância (inimiga do conhecimento). Lembro-me agora da comparação com a história de Adão e Eva, dois inocentes, duas crianças que cobiçaram o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que lhes estava vedado por Deus. Tive um dia a teoria (inspirada no F. Pessoa) de que o espírito inocente é mais feliz - ideia que esta parte bíblica quer transmitir. Hoje não estou tão certo. Sim, podemos ter sido felizes na infância, mas só hoje temos conhecimento disso. Ou seja, precisamos da consciência da felicidade para a podermos saborear no momento.
Acho este bem (a inocência de uma criança) tão precioso, que por vezes olho para certas responsabilidades do factor «educação» como quase mutilantes, pois estão a roubar a inocência (para mim, sagrada) que temos enquanto jovens. Olhava, e ainda olho em parte, para a formação que recebemos da sociedade como uma deformação. Infelizmente, aceito-a agora como um mal necessário.
Hoje já não tenho a pena que sentia de não ser criança. Será isso bom ou mau? Talvez tenha sido corrompido, talvez algures no meu caminho tenha desistido de ser criança, tenha passado a adulto estagiário e agora esteja em vias de me efectivar.
(Aliás, devo corrigir. Ainda sinto pena, apenas a mágoa diminuiu.)
É um jogo muito complicado tornarmo-nos adultos, mantendo ao mesmo tempo traços de infante que nos são queridos. É necessário um cultivo permanente e uma luta feroz, visto que o mundo das crianças é frequentemente incompatível com este «nosso». Acho que foi Einstein que disse que «génios são aqueles que, em adultos, continuam a fazer perguntas de criança». Algo há de verdade nesta frase.
Quem ainda for dono de algumas gemas brilhantes dos seus primeiros anos, guarde-as e cuide carinhosamente delas, pois são essas que nos dizem verdadeiramente quem fomos nos nossos pequenos e sonhadores dias de Grandeza.

Nas palavras sábias de um grande «filósofo»:
"Truly wonderful, the mind of a child is." - Master Yoda dixit
:P

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Restauração

Não, não vou falar sobre a recuperação de edifícios decadentes ou sobre a indústria de restaurantes (aliás nem uso o neologismo nestes casos).
Acho que convém aqui lembrar este dia, ou seja, o porquê de hoje ser feriado – a restauração de independência portuguesa em 1640. (não, não é porque é o Dia Mundial da Sida, como alguns pensam).
[ouvi hoje na televisão que há cerca de 50000 infectados em Portugal. devia escrever sobre isto, porque é mesmo preocupante. enfim…]
Faço isto porque, para além de ser um dos feriados com mais significado para mim, infelizmente já ninguém comemora o facto de termos dado um valente chuto no glúteo usurpador dos espanhóis. Bem sei que não foi propriamente ontem, por isso, não há ninguém vivo para relatar os acontecimentos.
[apesar de eu desconfiar que alguns que andavam por lá, ainda estão entre nós: a Lili Caneças, talvez. :P]
Não me orgulho propriamente do estado do meu país, mas apraz-me que sejamos independentes e que tenhamos uma pátria nossa.
[seremos mesmo independentes? Isto dava pano para mangas, colarinhos e por aí fora.]
Tenho na tripa um qualquer sentimento que se assemelha a patriotismo e que me dá gozo saber que, depois de 60 anos de domínio filipino (não confundir Filipinos com Espanhóis. lol), mandámos a Duquesa de Mântua e o seu séquito parasitário dar uma «volta ao bilhar grande» e que ainda estivemos em guerra 30 anos a lutar pelo que é nosso.
Espero que este dia não caia completamente no esquecimento, apesar de para lá caminhar, ao lado do 25 de Abril.
Viva o 1 de Dezembro!
[credo…isto soa tão mal. lol]

Frases do dia



Valha-nos o bom humor para encarar a política, já que com seriedade isto dificilmente lá vai.

Ricky Martin versus Vivaldi

Nestes últimos dias tenho estado a ouvir um CD de música vocal de Vivaldi que comprei hà uma semana.
Fui à fnac com o «Puredo» (nome do nosso gang na faculdade), não contava comprar nada, mas lá vi isto, ouvi, gostei e, na minha fraqueza, sucumbi aos apelos do meu Ego, ou seja, comprei. Eis o mal de me aproximar daquele estabelecimento comercial demoníaco. :P

Há pouca música que me dê tanta «pica» como o barroco e sobretudo o italiano.
[ou isso ou Marante]
Não sei bem porquê, mas a música latina (e também a latino-americana…façamos a diferença que muitos não fazem) «mexe» corporalmente connosco de uma maneira notoriamente visceral – não estou propriamente a falar em dançar.
Dá-me realmente vontade de acompanhar (mesmo fisicamente) a música neste disco, o que não é habitual.
É claro que podemos explicar isso facilmente. Basta pensar no uso característico de ritmos vivos e intensos aliados a melodias simples que «ficam» rapidamente no ouvido.
É uma música num certo sentido mais primitiva (mas nem por isso inferior), visto que realça ligação orgânica e natural que há entre Corpo e Ritmo.
Ou seja, quanto mais sofisticada é a construção musical, geralmente mais atenção é dada à melodia e harmonia, afastando-se assim das raízes, dos primórdios da música como arte - um dos «calcanhares de Aquiles» da erudição musical.
Hoje, por exemplo, estava a almoçar num shopping e tinha como música de fundo uma canção qualquer do Ricky Martin. Devo dizer que apesar de aquilo me enjoar um pouco, entranha-se com uma facilidade bestial e dei por mim quase a trautear a coisa.
O mesmo se passa com música italiana, neste caso Vivaldi; não que me enjoe, nada disso. Lol
Há uma vivacidade fenomenal que certas peças do «padre ruivo» têm, sobretudo quando interpretadas por agrupamentos do seu país natal…digamos que se contam pelos dedos de uma mão os agrupamentos anglo-saxónicos a tocar Vivaldi realmente com anima. Talvez seja algo do género: «é preciso ser-se português para cantar fado».
Vou aqui evitar comparações desnecessárias entre «Rickies Martins» e Vivaldi para não ferir susceptibilidades (de adeptos de ambos os lados). Não vou dissertar sobre o óbvio facto de que o R. Martin não faz música de alta qualidade, mas também não gosto de me «armar» em defensor da música «erudita» face por exemplo à pop latino-americana e avançar com um discurso a defender a putativa superioridade da «clássica», o que costuma dar a impressão errada de que é uma música snob feita por pessoas snob para um público snob.
Ainda por cima, continuo a achar (e isto vai chocar alguns) que Vivaldi não foi um Grande compositor (sim!, com G maiúsculo). Bem, o tipo escreveu muitas coisas porreiras, algumas mesmo geniais, mas daí a compará-lo com Bach ou outros…alto lá e pára o baile. Tenho a impressão de que foi Stravinsky que disse (maliciosamente, diga-se) que Vivaldi compôs um concerto e depois copiou-o 500 vezes – visto que o homem escreveu cerca de 500 concertos «um pouco» parecidos entre si. :P
E depois, claro, há o grande problema: é que se Vivaldi estivesse hoje vivo, dificilmente seria uma estrela de massas como é o Sr.Martin, visto que nestes nossos plásticos dias se vive crescentemente «da e para» a imagem. Ora, vejam se concordam:

:)