domingo, novembro 28, 2004

Vidas adiadas

Li noutro dia uma frase no Nakamura's Place que me fez pensar nas vidas adiadas (ou que nunca o serão) que quase todos temos. A japonesita relatava o facto de que os seus amigos lhe diziam, volta e meia, que ela andava a desperdiçar-se no curso de Biologia.
[sei que há quem pense o mesmo de mim]
Eu, por exemplo, se pudesse teria sido pianista. Não tenho a menor dúvida de que seria esse o meu caminho, se fosse bom o suficiente para singrar no ultra-competitivo e incerto mundo da performance musical. Infelizmente não o sou.
Não sendo pianista, poderia ser escritor. Adoro escrever, mas mais uma vez como não sou dotado de uma veia literária genial e nem sei se o que teria para dizer às pessoas valeria a pena (ou a caneta), não fui para Letras.
Uma vez que a escrita poderia ser um hobby (assim como a música), quis seguir medicina, visto que sempre delirei com o estudo da estrutura/função do nosso organismo e de outros. Não queria ser propriamente médico, apenas tirar o curso de Medicina e ser investigador ou dar aulas.
Mais uma vez, por limitações próprias, não tive notas para entrar em Medicina e fui para Biologia - curso onde estou hoje e com gosto.
Ou seja, vou um dia ser Biólogo, porque não pude ser Pianista, nem Escritor nem «Médico».
Tenho 3 vidas adiadas, pode-se dizer.
Mas não levo uma vida falseada, embora às vezes sinta que sim. Não é nada mau o que tenho: continuo a estudar ciências da vida (que adoro), escrevo quando posso e com prazer, e todos os dias da minha vida toco piano e ouço música, e isso sim: é o que insufla «nectariamente» Vida na minha existência.

sexta-feira, novembro 26, 2004

De Tarde

Hoje um amigo meu entrou nos «intes» e sugeri-lhe que fossemos a Serralves ver a exposição da Paula Rego e dar uma passeata nos jardins.
[as camélias ainda não chegaram em massa, infelizmente]
À entrada do museu pululavam camionetas: sinal de que lá dentro estariam vários grupos de alunos. Confirmou-se. Várias turmas estavam a visitar a exposição acompanhados por guias...amparando-os nas suas caminhadas pelos perigosos caminhos da análise de obras de arte.
[gostava de saber se os guias lhes expõem mesmo as suas interpretações ou se eles debitam «chapa 10» a informação que lhes foi ministrada num qualquer briefing «powerpointizado» sobre as obras da pintora…talvez seja um misto das duas situações. espero que o Taylorismo esteja o mais possível afastado do mundo da arte]
Lá entrámos e fomos ver a mostra. Nunca tinha visto quadros da Paula Rego ao vivo...devo dizer que gostei muito. Um quadro que está logo no início da exposição - Angel - marcou-me particularmente o olhar, pela técnica: o uso magistral do pastel, aquele amarelo áureo da saia, e também pela humanidade: a pose, a força humana - para além da pictórica - daquela mulher (a mulher-mãe)...


Angel de Paula Rego

Aqueles retratos são de facto bastante impressionantes. Abundam as referências sexuais (explíctas ou não), infantis, auto-biográficas.
[Freud devia delirar com aquilo]
A Mulher é quase sempre apresentada como robusta, forte, com traços duros na face (ainda que sejam figuras dóceis): o estereótipo da mulher portuguesa, sobretudo da mulher trabalhadora ou da província.
A autora trata temas tão prementes como o aborto, a pedofilia e o sofrimento individual, todos reunidos num mundo de realismo possante.
Também lá temos o imaginário pessoal e fantasista.
[mais material a psico-analisar...ou não – atribui-se muito facilmente simbologia a objectos que não a têm verdadeiramente]

Vi também uma «escultura sonora» de Susan Hiller - Whispering Voices.
Entrámos numa grande sala escura apenas iluminada com uma luz azul, com centenas de earphones transparentes pendurados no tecto, nos quais estão gravadas mensagens de pessoas que relatam fenómenos inexplicáveis que avistaram (e.g., ovni), tudo isto em várias línguas: desde inglês a japonês passando pelo grego. Genial.
Aqui vão 3 fotos:




Lembro-me também de ter visto umas «obras de arte» (ou pseudo) dum artista de que já nem me recordo. Era uma série de manipulações plásticas e gráficas de dezenas de postais com ondas gigantes a bater na costa inglesa. Sim...parece muito interessante, não é? Lol
Não gostei muito. Mais um daqueles casos que me lembrou o velho dilema de o que é a arte hoje, qual/quais as suas características e funções. É claro que não há uma resposta consensual, sobretudo devido ao «caos» de referências em que a arte contemporânea nos veio mergulhar com os seus cultos da chamada «arte primitiva, das crianças e dos loucos».
No fundo, passámos de uma «arte que poucos conseguiam fazer mas todos conseguiam compreender» para uma «arte que todos conseguem fazer mas poucos conseguem compreender».
Concluindo, foi uma tarde bem passada.
:)

quinta-feira, novembro 25, 2004

Hallelujah

Aleluia! Finalmente acabou o suplício de ter que estudar o Decreto-Lei n.º 265-A/2001 de 28 de Setembro com as alterações introduzidas pela Lei n.º 20/2002 de 21 de Agosto (vulgo Código da Estrada - sequela aproximada do Código Da Vinci).
Passei no exame de código; errei uma pergunta.
Cheguei a casa numa aura de felicidade etérea...fui logo ouvir Händel e Rameau para andar aos pulos (não literalmente, claro...quem não me conhece, não imagine cenas acrobáticas caricaturais da minha pissôa lol).
Já não podia ouvir falar mais em ciclomotores, tractocarros, setas de selecção, sinais de afectação, ramais de acesso, dísticos, tacógrafos, coimas, taras e sabe-se lá que mais termos aquela gente satânica foi capaz de congeminar para nos enfezar as moinas.
Mas porque é que não se diz buzinar e se diz «sinais sonoros»?, ou ponte em vez de «passagem superior»?
Também não quero exagerar...a verdade é que de vez em quando lá aparecem umas poucas palavras normais para aliviar o intenso sofrimento psíquico.
Mas porque é que existem designações como «sinalização gráfica horizontal longitudinal contínua»? Tenham lá paciência!
E não nos esqueçamos o quão importante é saber que «veículos com largura superior a 2,10m devem ter 2 luzes brancas à frente e 2 vermelhas atrás para delimitar essa largura»!
Depois há aquelas fantásticas frases (directamente retiradas do código, suponho) que os professores nos dizem num tom robótico: «O Veículo Pesado de Mercadorias incorre numa contra-ordenação por uso indevido da faixa de rodagem da esquerda».
É claro que este fenómeno é do domínio do sobrenatural: algum espírito amaldiçoado para toda a eternidade a regurgitar frases do código completas e exactas deve baixar nos professores aquando destas inigualáveis respostas aos nossos primários e curiosos anseios enquanto alunos.
[ou a explicação é esta ou então eles fazem parte de uma obscura seita que implanta chips cefálicos alienantes nos seus membros...escolham a teoria que vos parecer mais «sensata» :P ]
O pior disto tudo é que eu dou por mim na rua a ver uma mota sem luzes e penso qualquer coisa como «o motociclo está praticar uma contra-ordenação grave por não ligar as luzes de cruzamento»! Começo a sentir-me afectado por isto.
E agora para terminar e aguçar a curiosidade daqueles que ainda não se dedicaram à mui nobre e heróica cruzada que é tirar a carta B, vou aqui escrever umas perguntas que já saíram em exames. Aproveitem: são verdadeiras pérolas.

. Um condutor, ao recusar-se a efectuar um exame de análise ao sangue está a praticar um acto de:
A) Desobediência
B) Desobediência agravada
C) Desrespeito à Lei

. A agressividade é um estado de espírito que afecta negativamente a condução:
A)Certo
B)Errado

And now, my favourite, the top cherry:

. O sinal de informação indica-nos a presença de uma:
A) Passagem de Peões
B) Passagem para Peões
C) Passadeira de Peões

Como vêem, as perguntas são de extrema relevância e focam aspectos vitais.
Talvez por isso se conduza tão bem em Portugal... :P

segunda-feira, novembro 22, 2004

Jovensss

Hoje. Mais um dia de aulas. Frio na paragem de autocarro. Chegar atrasado. Descobrir que afinal não havia aula. Aula sobre polímeros plásticos. Almoço. Aula sobre respiração. Aula sobre solos e recursos hídricos. Escrever no blog.
[The fluency of the text is rather striking, isn't it? :p ]

Vou só contar um episódio que me aconteceu hoje ao almoço.
Estava com um amigo meu e com a namorada dele a falar sobre o facto de esta «nossa» sociedade ocidental estar completamente podre e a precisar de uma profunda renovação.
Estávamos a falar da quase completa inversão de valores de hoje, desde a falta generalizada de civismo e de responsabilidades pessoal e social até à mediocridade gritante da política. Falávamos de que já não há espírito de inter-ajuda ou «exemplos» morais (não olhem para o termo moral como se fosse arcaico, por favor).
Estaciona-se fora de sítio sem peso na consciência, bate-se num carro e foge-se, somos insensíveis aos infortúnios dos outros, os alunos batem impunemente nos professores, cultiva-se e elogia-se o grotesco (se ainda fosse a «loucura» do Erasmo), os novos políticos não têm qualidade, os que já existem mentem-nos descaradamente e silenciam publicamente e sem pudor as vozes incómodas. Enfim...
Perguntava-mo-nos se seria possível mudar isto com apenas os nossos pequenos exemplos (não que sejamos perfeitos, longe disso).
Nisto, uma senhora interpela-nos...
-«Desculpem, Jovens. Não pude deixar de ouvir a vossa conversa [...] fiquei admirada [...] quero dizer-vos que devem continuar a lutar: porque vale a pena. [...] Não desistam. [...] Sou assitente social. [...] Gostei de vos ouvir. [...] A juventude... [...] São vocês que têm de mudar o mundo.»
(ditos soltos de que me lembro)
O meu amigo disse-lhe que infelizmente somos uma minoria e que «isto tudo» vai muito mal.
Por um lado, não gosto quando as pessoas mais velhas nos dizem (à la voz radiofónica dos anos 30 ou reclame televisivo das forças armadas) com um ar maravilhado/estupefacto e a olhar para nós como se fossemos aves raras, qualquer coisa como «Não sabia que havia Jovensss a pensar assim. Continuem!».
Por outro lado, tenho de concordar que esta globalização de ideias e modos civilizacionais (a meu ver, errados) está aos poucos a parasitar as cabeças das camadas mais jovens e a conduzir a uma cómoda apatia intelectual e a uma falta grave de espírito crítico.
Convenhamos, nem 8 nem 80. Não somos uma geração «rasca» e acefala.
Senhores, escusam de ficar boquiabertos quando alguém com 20 anos ou menos diz uma frase com pés e cabeça. Deixem o preconceito de lado.
Não acreditam em mim?
Então, vejam:





domingo, novembro 21, 2004

Cardápio

Aqui vão duas sugestões:

Para quem gostar de dry humour, há agora uma série nova na Britcom (sábado à noite n'a dois): «MIGHTY BOOSH». Só vi dois episódios, mas até agora tenho gostado bastante. O de ontem teve gags geniais.



Para quem gostar de fotografia/história, está ainda a decorrer (até ao fim do mês, penso) uma exposição de fotografias de Carlos Relvas no Museu Soares dos Reis. Fui vê-la hoje por recomendação de um tio meu que é fotógrafo profissional.
De facto, vale muito pena: há desde fotos da casa/estúdio que ele construiu na Golegã - arquitectura espectacular - até dezenas de auto-retratos, retratos de outras «personagens» e inúmeras paisagens (Porto inclusive).
[Que Portugal era o nosso. Genuino, Belo. Mas Tanta pobreza. Faz-me pensar no que nos tornámos. No bom e no mau.]
É espantosa a visão que aquele homem tinha já da fotografia como arte (estamos a falar da segunda metade do séc. XIX: não havia a proliferação que hoje temos de livros, manuais, enfim, exemplos consumados a seguir). A manipulação que ele faz da luz, dos contrastes, sombras, perspectivas...
Há lá alguns retratos que simplesmente já me fizeram valer o dia.
Enjoy.

sábado, novembro 20, 2004

Mont Saint Michel

Há uns tempos estava com uns amigos a ver o DVD de «O Regresso do Rei» da trilogia «O Senhor dos Anéis». A dada altura aparece Minas Tirith - uma imagem de facto imponente: a majestosa cidade toda branca, construida como se fosse um cone - e um dos meus amigos disse qualquer coisa como «Porquê que não há cidades assim na realidade? Quem dera!» e eu disse-lhe que havia, pelo menos parecidas.
Então aqui vão umas pics sobre o Mont Saint Michel em França, na Normandia (perto da Bretanha). É uma ilha rodeada por uma enorme planície; o monte é acessível quando a maré está vaza (por uma estrada que se vê nas imagens), mas quando o mar sobe, fica inacessível.
Enjoy.
:D









E aqui vai uma que tirei da primeira vez que lá fui (sim, sou aquele pirralho de amarelo) :P


Erlkönig

Lembrei-me agora de ouvir uns lieder («canções germânicas», digamos) de Schubert (um dos meus compositores favoritos) numa interpretação que cá tenho do Dietrich Fischer-Dieskau com o Gerald Moore (como não podia deixar de ser...este par para este reportório).
Pus-me a ouvir o «Rei dos Álamos», que é, para mim, das canções de Schubert mais bem conseguidas, sobretudo a nível dramático. A parte do piano é simplesmente genial: a imitação do galope do cavalo, a tensão crescente que se instala, a passagem pelo clímax e finalmente o final trágico e arrepiantemente gélido.
A canção tem letra de Goethe (provavelmente o maior monstro sagrado da literatura alemã) e é excepcional. Tem inspiração na mitologia germânica (que do pouco que conheço, gosto bastante).
Conta a história de um menino que cavalgava com o seu pai numa noite de névoa pelos meandros de uma floresta (de Álamos, penso). O menino ouviu o chamamento sussurrado do Rei dos Álamos (criatura do imaginário fantástico): este pedia-lhe que fosse brincar com ele. Mas o rapaz não queria, uma vez que isso significava que ele...
O menino amedrontado disse ao pai que o Rei o estava a magoar. O pai (também ele alarmado) cavalgou então a todo galope para fugir daquela floresta encantada e salvar o menino.
Ao chegar à segurança da quinta, ele olhou para o seu regaço... a criança estava morta.

Aqui vai a tradução livre para inglês:

THE ERL-KING
D.328d (Op.l) (1815)
Johann Wolfgang von Goethe

Who rides so late through night and wind?
It is the father with his child;
He holds the boy safe in his arms,
He grasps him surely, he keeps him warm.

"My boy, why do you hide your face in fear?"
"Don't you, father, see the Erl-king there?
The Erl-king with crown and tail!"
"My son, it's but a sheet of mist."

'You sweetest child, come, go with me!
Some fine games I shall play with you;
Many a gay flower grows on the shore,
My mother has many a garment of gold.'

"My father, my father, do you not hear,
What promises Erl-king's whispering to me?"
"Be calm, stay calm, my child:
In dry leaves rustles the wind."

'Will you, gentle boy, now come with me?
My daughters shall wait upon you;
My daughters lead the nightly round,
They'll rock and dance and sing you to sleep.'

"My father, my father, and don't you there see
Erl-king's daughters in the unholy spot?"
"My son, my son, I see it quite clear:
It is the old willows that seem so grey,"

'I love you, I'm attracted by your lovely youth,
And if you aren't willing, I shall use force.'
"My father, my father, he's touching me now!
Erl-king has done me grievous harm!"

The father shudders, he now rides fast,
In his arms he holds the groaning boy,
He reaches the farm with his last strength:
In his arms the child was dead.


sexta-feira, novembro 19, 2004

Risos Laterais

Não liguem ao texto...Estou embriagado, devo avisar! Não de álcool, mas de vazio.
O que pensamos quando vemos alguém a rir?, quando alguém nos fere com o olhar e solta um riso abafado?
[apenas o som é abafado; o descortinar pérfido da boca é demasiado agudo]
Terá sido algo real ou o imaginei eu? [hipérbato, lembrei-me de ti]
Já sei do meu complexo pelo desdém colectivo que penso ter o mundo por mim. Será por isso que vi uma agressão naquele riso? Podia ser um riso inocente. Não o sei.
Sinto que os vi, cruéis e lancinantes (mas nem por isso malévolos), a olharem-me descaradamente e a rirem-se: aquele olhar a espetar-se na minha fragilidade.
O que estava por detrás daqueles olhos? Sarcasmo, antipatia primária?
O que pensavam aqueles olhos?, o que diziam? Que olhar era aquele naquela boca?
Sonhei aquele momento? Aconteceu?
Não faz mal, seja ficcção ou realidade, o ardor passará e terá sido apenas mais um olhar.
Mais um apenas, no poço de tantos outros que todos os dias me prescrutam ainda, vindos do passado.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Day One

5, 4, 3, 2, 1... Liftoff!