sexta-feira, janeiro 27, 2006

O Amado dos Deuses

E eis que por breves instantes, surjo das trevas da hibernação estudiosa, apenas para lembrar que há um quarto de milénio nascia em Salzburg Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart ou, como ficou para a eternidade, Wolfgang Amadeus Mozart.
Um ser humano que nos legou horas de luminosidade e sorrisos, primeiro como criança-adulto e depois como adulto-criança.
Não vou falar muito sobre o milagre do seu génio, pois não tenho competência para tal.
Deixo-vos apenas com duas frases favoritas que o farão muito melhor de que eu, lembrando a velha máxima que diz que Mozart veio ao mundo para provar que Deus existe. Não posso dizer que discordo :)

«Mozart conduz-nos até às profundezas do reino dos espíritos. O medo envolve-nos, mas não nos atormenta, pois é uma premonição do infinito.»
E.T.A. Hoffmann

«Eu não tenho a certeza de que os anjos, quando glorificam Deus, toquem música de Bach; em contrapartida, estou certo de que, quando estão entre si, tocam Mozart e que Deus gosta então muito especialmente de os ouvir»
K. Barth


W.A.Mozart por B. Krafft, 1819

sábado, dezembro 03, 2005

A Folha do teu Sorriso

Lembrei-me de ti.
Podes não acreditar, mas há uns dias, bastou um olhar fugaz lançado àquela pequena flor, para que te resgatasse por uns instantes.
Qual flor, perguntas?
Tu não a conheces, nem nunca a irás saborear com os teus olhos, senão nestas linhas: a sua beleza efémera estilhaçada nesta minha descrição insuficiente.
Estava a vaguear despreocupadamente no jardins de Azay-le-Rideau, quando a vi, bem perto do lago redondo, aquele que está envolto numa manta voluptuosa de algas e ocultado pela languidez de uns chorões.
Era uma pequena planta, desamparada e esquecida no meio da folhagem ainda vivaz, a acenar-me timidamente.
Podia facilmente ter ido ao encontro daquelas estrelícias que se pavoneavam no canteiro dos tijolos velhos, exibindo sem qualquer pudor as suas cristas de fogo. Estavam numa espécie de dança sensual com a brisa aveludada que se sentia naquela manhã.

No entanto, optei por visitar aquela singela flor, não consigo descortinar o porquê.
Aproximei-me dela para escutar o que tinha para me dizer. Era tão simplesmente o amarelo das suas pétalas.
A luz que delas saía com uma força inebriante, percorreu a minha retina, e encontrou-te por entre um punhado de memórias há muito engavetadas.
Não sei se foi a sua cor que me fez recordar o dourado daqueles longos e secretos fios que moravam por entre o teu cabelo, naquele mar de noz-moscada. Sinto que sim.

Lembrei-me de ti.
Lembrei-me de como os teus olhos se escondiam infantilmente ao sentir o teu sorriso chegar, do brilho redobrado com o qual ressurgiam.
Lembrei-me do calor dos teus lábios, do seu tom quase tinto no Outono, quando imitavam naturalmente as roupagens das folhas.
Sabes que não acredito em desígnios insondáveis, mas não pude deixar de atentar naquela folha rubra a descansar no regaço da «tua» planta; não consegui evitar a saudade da tua boca.

domingo, novembro 27, 2005

Sumário da Vintena

Vinte dias passaram e eu não «postei». Hélas!
Isto por causa de uma apresentação que tive de elaborar para Organogénese e Embriogénese Vegetal In Vitro. Nesta «poltrona», a professora dá-nos capítulos de livros e artigos de revistas científicas para ler, a partir dos quais temos de dar uma aula aos nossos colegas sobre um dado assunto. Ao meu grupo, calhou o tema de «Sementes Sintéticas»: embriões somáticos (ou outras estruturas vegetais) encapsulados numa matriz gelatinosa (e.g., alginato de sódio).
O trabalho é sobre o seu desenvolvimento e optimização para futura comercialização. Até é interessante. A minha parte da apresentação correu bem, mas a «aula» só vai ser concluída esta semana devido à falta de tempo.

Mais grave de que o tamanho da minha ausência da «blogosfera» é o facto de o meu blog ter completado 1 ano no passado dia 17 e eu não lhe ter soprado qualquer vela. Bem sei que ele está um pouco moribundo, mas ainda não esticou o pernil. O dia chegará.
[Só um pequeno aparte: o meu Muito Obrigado a todos aqueles que ao longo deste ano de algum modo contribuíram para este meu mini-projecto.
Agradeço a quem comentou: in situ (conhecido ou desconhecido), via e-mail ou oralmente e também a quem criticou construtivamente. Estou grato por «me» terem lido.
Aprendi bastantes coisas ao ter pesquisado informação para certos posts e acima de tudo, não deixei perecer a minha escrita, cujas curvas e recheios continuamente questiono e tento melhorar.]
Retomando a narrativa...
Naturalmente que algumas coisas que fiz nestas semanas terão de ficar pelos neurónios e não vão passar para o ecrã. Isto já é sabido.

Vou começar pela minha ida a Braga.
No passado dia 11, fui visitar a «augusta» cidade para participar no 2º dia de palestras das VII Jornadas de Biologia Aplicada. Este evento é todos os anos organizado pelos alunos finalistas do curso de Biologia Aplicada da Universidade do Minho e inclui uma série de conferências dadas por especialistas de várias áreas ligadas às ciências biológicas (desde a Oncologia até à Biotecnologia Vegetal), bem como a possibilidade de participar em vários workshops.

Como a Tzipporah - companheira «bloguista» e amiga do Citcat - é uma das organizadoras, havia particular interesse nestas Jornadas. Ela teve aliás a gentileza de receber um bando de estranhos tresloucados na casa dela e de lhes mostrar a Universidade. :)
Fiquei com pena de não ter ido no dia 10 porque o programa era (sob o meu ponto de vista) mais cativante, mas as aulas revelaram-se um grilho.
De qualquer das maneiras, gostei bastante. Algumas conferências não foram bem a minha cup of tea, sobretudo as mais viradas para a Ecologia, mas todas foram muito enriquecedoras.
Houve três que me chamaram a atenção; a primeira foi sobre a utilização de leveduras na biorremediação de corantes. Ou seja, usar certas estirpes de, e.g., Saccharomyces sp., que sejam capazes de metabolizar corantes azo para tratar efluentes industriais/têxteis antes que estes sejam despejados no meio ambiente, evitando assim que os rios fiquem como um arco-íris. A Doutora Patrícia Ramalho (U.Minho) está a optimizar as condições necessárias para estas degradações microbianas de corantes. Talvez num futuro próximo se possa aplicar esta tecnologia às ETARs. Seriam boas notícias.

Saccharomyces cerevisiae

A seguir tenho a destacar a do Dr. Mário Leitão (Escola de Mergulho Cavaleiros do Mar), um senhor de formação farmacêutica que se dedicou nos últimos anos à exploração subaquática do nosso mar, principalmente na zona costeira de Viana do Castelo.
No decorrer da apresentação, ele frisou várias vezes que em termos científicos não percebia nada de Biologia Marinha e que não ia «ensinar ao padre o Pai nosso». Disse aliás algo curioso e que me pôs a pensar: «Estou aqui a mostrar-vos esta biodiversidade marinha que conheço, mas da qual não sei falar
A conferência não me pareceu muito bem planeada, o discurso era desconexo, pouco articulado. Eram dezenas de fotografias de animais e plantas marinhos em sequência, com comentários improvisados.
Apesar disso, gostei. Não sei se foi a humildade grandiosa daquela frase que comoveu, se o infinito colorido dos slides que me relembrou a magia da vida dos oceanos. Algo me cativou.

Peixe-escorpião de Merlet


Foca barbuda

Nudibrânquio (molusco)


Por fim, agora numa vertente mais científica.
A última palestra das Jornadas, dada pelo Prof. Dr. Francisco Carrapiço (U.Lisboa), foi para mim a mais interessante, porque tocou num tema que acho dos mais fascinantes em Biologia: a origem e evolução da vida.
Todos sabemos que desde a grande pedrada no charco que foi a publicação de "A Origem das Espécies" (fez 146 anos neste dia 24) pelo naturalista britânico Charles Darwin, este assunto sofreu uma revolução.
Darwin, ao publicar a sua teoria sobre a selecção natural, veio contradizer o estabelecido por séculos de doutrina judaico-cristã: a imutabilidade das espécies. Com isto, abanou seriamente os alicerces de uma boa parte da sociedade e veio contribuir para a desmistificação de alguns dos preceitos patentes no Génesis; nos quais assentavam várias das teorias creacionista reinantes.

Charles Darwin em 1859
(atentem na imagem de marca: a excelsa calote)


Um dos baluartes da teoria Darwiniana é a selecção natural, ou por outras palavras, a «sobrevivência do mais apto». Ora isto parte do pressuposto de que os organismos (indivíduos) lutam entre si pelos recursos disponíveis; a competição é portanto o «motor» da evolução.
Por causa disto, hoje em dia, há cientistas que definem a teoria de Darwin como incompleta ou mesmo incorrecta. Estes homens de ciência defendem que um factor de extrema importância na evolução é, não a concorrência, mas a cooperação, a conjugação de esforços.
Como exemplo paradigmático temos a Teoria Endossimbiótica, hoje largamente aceite graças ao importante trabalho da bióloga norte-americana Lynn Margulis (curiosidade: foi casada com o astrónomo Carl Sagan). Convém referir também o nome de Constantin Merezhkowsky, biólogo russo que já em 1909 usava o conceito de simbiogénese, apontando para uma «origem dos organismos pela combinação ou associação de dois ou vários seres que entram em simbiose».
Uma simbiose é por definição uma associação de dois seres vivos diferentes com proveito mútuo.
Pensa-se que as actuais células eucarióticas (animais, plantas e fungos) terão evoluído a partir de sucessivas (endo)simbioses entre células procarióticas mais primitvas («bactérias»). Posteriormente, estas novas células agregaram-se para formar organismos multicelulares, ou seja, nós. Isto ocorreu naturalmente há vários milhões de anos.
Vários tipos de simbiose terão levado à formação: do núcleo (onde se encontra o material genético, o DNA), de organelos celulares como as mitocôndiras (essenciais para as nossas células obtenham a energia necessária para o seu funcionamento) e de cloroplastos (compartimentos existentes nas plantas e nas algas que lhes permitem ultilizar a luz solar para fabricar o seu próprio alimento).

Sob um certo ponto de vista, podemos afirmar que nós somos uma miscelânea, uma amalgama de bactérias, vírus, etc.
Curiosamente, os Darwinistas foram no séc. XIX enormes promotores da mudança de mentalidades e da abolição de dogmas instalados.
Paradoxalmente, há hoje alguns que se agarram ao dogma neo-Darwiniano com unhas e dentes e não parecem estar dispostos a ouvir estes novos argumentos da escola endossimbiótica. É triste constatar como o ser humano é sempre tão avesso à mudança, e contra mim falo, obviamente.
Concluindo, a palestra foi muito motivadora. Tive a oportunidade de perguntar ao Prof. Carrapiço a opinião dele sobre o que se está a passar neste momento nos States: o Pres. Bush declarou-se a favor do ensino nas escolas do «Design Inteligente», que é um neo-creacionismo, é uma teoria que tenta explicar como a «mão» de Deus guiou todo o curso da evolução. Convém também acrescentar que cerca de 50% (!) da população norte-americana acredita no creacionismo fixista da bíblia, cerca de 40% acredita numa espécie de Design Inteligente e que apenas 10% acredita na Evolução «pura e dura». Enfim, mais um dado a acrescentar à considerável lista que me faz ser «um pouco» desconfiado em relação àquele povo.

Falando agora de cinema, fui ver anteontem a «bomba» do momento : "Harry Potter e o Cálice de Fogo".

Não li o livro, daí não poder opinar quanto à qualidade da adaptação.
Quanto ao filme em si, posso dizer que no geral gostei bastante, mesmo com a tradução de qualidade duvidosa: refere-se ao «Prof. Sprout» quando este é uma mulher e usa palavras como «bera» que para mim continua a ser um regionalismo lisboeta – isto é só um juízo, claro.
Apesar de ter apreciado mais da trama do filme anterior, esta também tem o seu interesse, se bem que uso sistemático por parte da autora dos sucessivos novos professores da «Defesa contra as Artes Negras» como peça pivot no desenrolar das estórias já começa a cansar um pouco.
De resto, as actuações dos três principais e jovens actores têm vindo a melhorar a olhos vistos e os efeitos especiais idem.

Quero só apontar mais um aspecto: a clara evolução dos filmes (e suponho que também dos livros) no sentido de um universo mais sombrio e violento, i.e., cortam-se mãos, assassinam-se pessoas, há medos e ameaças muito mais reais do que no já longínquo e «Disneyano» primeiro filme. Filmes para crianças muito pequenas?...Não sei.
Apesar desta mudança de tom, continua a haver as eternas lições de moral e ainda bem.


Mudando de assunto... Ontem, fui à festa de anos do FL. Ainda nos pusemos a ver o «Matrix Revolutions» para recordar uns quantos pormenores. Empanturrámo-nos todos com comida e depois fomos para o Vogue, estabelecimento de diversão nocturna, vulgo discoteca. (Sim, eu!, o puritano frígido!)
O ZP e eu fomos os primeiros a chegar. Estava lá um pequeno maralhal ansioso por entrar, nem que não fosse só para fugir do gelo petrificante que se sentia no exterior.
E não é que mal o ZP e eu nos aproximamos do passeio, o porteiro (estilo Mourinho) se vira para nós com um sorriso Aquafresh, afasta o resto das pessoas da frente, e diz: «Os senhores, p.f.... Desejam entrar?». Pausámos um pouco para contemplar o momento, com natural estupefacção seja dito, e lá entrámos, deixando para trás uns quantos personagens que nos lançaram uns olhares raivosos.
Incrível!, parecia uma daquelas situações «hollywoodescas».
Eu suponho que isto tenha acontecido por causa do ZP, já que eu não tinha a barba feita, e como toda a gente que me conhece pode constatar, a partir de um certo comprimento piloso eu fico com ar de arrumador, ou não tivesse já eu sido cumprimentado na rua por um fellow.
Esperámos um pouco pelos outros no hall e lá entrámos no saloon propriamente dito.
Nas duas horas seguintes, tentei ocasionalmente simular com o meu corpo qualquer coisa que se assemelhasse vagamente a uma dança, mas que ao mesmo tempo não me envergonhasse para a próxima década. Espero tê-lo conseguido. lol

Bem, vou regressar ao estudo pianístico, a ver se ainda treino um bocado de uma peça nova que comprei, o Concerto BWV973 de Bach. Aquilo originalmente é um concerto de violino de Vivaldi, mas Bach transcreveu-o para teclado: é o melhor de dois mundos, design italiano com construção alemã. :)
Ouçam um bocado e vejam se não é estupendo. Enjoy!

domingo, novembro 06, 2005

«Liberdade» de Fernando Pessoa

Genial!

in «Público», 6/11/05

domingo, outubro 23, 2005

O Castelo Bem Temperado

Ontem, finalmente, saiu-me um caroço que estava desde há uma semana entalado na minha epiglote. Ainda bem, porque já estava a ver que precisava de uma manobra de Heimlich (os americanos têm uma panca com isto, não sei porquê). Custou, mas acabou por desaparecer.
Não se assustem, isto é tudo em sentido figurado, claro. :p
O que quero dizer é que andava em pulgas para ver o novo filme do japonês Hayao Miyazaki, «O Castelo Andante».

Fui vê-lo com o FP esta sexta-feira e sou capaz de repetir a dose um dia destes com o Puredo.
Desde «A Viagem de Chihiro» fiquei fã quase incondicional deste animador nipónico. Fui para a sala de cinema com as expectativas um pouco refreadas; aliás, forço-me sempre a isso, não vá o tombo ser grande.
Mas posso-vos agora dizer que não houve qualquer queda, bem pelo contrário: foi uma levitação.
O grau de fascínio com que fico a ver estes filmes é raro nos dias que correm, infelizmente. Não é só o deslumbramento visual que vem da mente do Miyazaki, a música é um pilar a não ser menosprezado. A partitura é do Joe Hisaishi, um compositor que participou também nos últimos êxitos do Estúdio Ghibli.
Já uma vez me pus a divagar sobre a magia da visão infantil do Miyazaki quando fiz um post sobre «A Viagem de Chihiro», por isso não vou repetir agora as minhas ideias sobre o assunto. Reafirmo apenas que a admiro como uma pedra preciosa.
O realizador como sempre mostra a sua adoração pelas paisagens e culturas europeias: as montanhas são claramente ao estilo dos Alpes (lembram-se da Heidi?, foi o Miyazaki que a criou) e a cidade de Sophie (a personagem principal) faz lembrar a arquitectura da Alsácia, sobretudo Colmar.
A região da Alsácia e da Lorena é um caso curioso: mudou várias vezes de mãos, ora gaulesas ora germânicas. Desde o fim da Guerra Franco-Prussiana em 1871 pertencia à Alemanha. Ora isto foi sempre uma pedra no sapato dos franceses, pelo que - como sabemos das aulas de História - trataram logo de corrigir o «engano» no Tratado de Versailles, após terem vencido a primeira Guerra Mundial, re-anexando o território.
Ainda hoje, a região tem várias localidades, tradições, artesanato e vinhos com nomes alemães, e uma porção considerável da população ainda fala a língua de Goethe. Aliás, Straßburg ou Strasbourg, a capital da região, não soa muito a francês.
A maior parte dos turistas vão visitar apenas Estrasburgo e esquecem-se de uma pequena grande cidade a sul, Colmar, que na minha humilde opinião põe a capital regional num chinelo. É uma vila extraordinariamente preservada, muito pitoresca. Vale muito a pena conhecê-la.

Quai de la Poissonnerie em Colmar
(Copyright©2004 Susanna Leon)

Bem, voltando ao filme...
Ao contrário de alguns, como o crítico do Público, eu não fiquei desiludido com o final da história. Não o acho abrupto, nem inesperado, nem mal preparado.
Quanto a mim, o problema é que estamos de tal maneira embalados naquela fábula, naquela narrativa de sonho, que não queremos que acabe o deleite. Estamos tão enredados naquela teia de imaginação açucarada que não acreditamos quando nos dizem que o stock está prestes a acabar.
O único defeito que poderia pôr a esta película do mestre Miyazaki é a ocasional ultrapassagem do limite de encantamento. (Se é que isso pode ser considerado um defeito.) Ou seja, o uso do fantástico é quase inebriante. Sobretudo na construção da cidade real, uma Viena delicodoce levada a um requinte extremo, ofuscante, over the top.
Há como sempre mensagens de índole moral: o não à guerra, a valorização da bondade, da amizade, do amor. É de louvar, porque a maior parte dos filmes ditos infantis têm uma linguagem bastante violenta.
É de referir os apontamentos de humor escondidos ao longo do filme, pequenos, brilhantes, impagáveis.

Mudando de assunto, nesse dia à noite, fui à inauguração da nova exposição do Museu de Serralves. Tem lá umas coisas bem porreiras.
Nunca pensei que estivesse lá tanta gente (e tanto fumo!).
A fauna que lá pululava era sobretudo de Belas-Artes. Aquilo é que são penteados, aquilo é que são roupas. E não estou a gozar. Oxalá houvesse mais pessoas assim.
Penso sempre que o Porto é uma cidade «fechada» (de um certo ponto de vista, claro) e pouco ou nada cosmopolita. E eis que vou a Serralves e dou de caras com um ambiente que bem podia ser o de uma reunião de habitués do MoMA em Nova-Iorque.
Só há uma questão que desde há uns tempos paira na minha cabeça: onde é que eles andam? É que eu não os vejo na rua. Parece que só saem das tocas nestas ocasiões. Provavelmente, devem andar em círculos sociais bastante fechados.

No sábado, aproveitei o fim da tarde para ver um DVD que comprei noutro dia, o último filme do octogenário Ingmar Bergman, «Saraband».

Desde pequeno que tenho um sério respeito pelos filmes deste realizador sueco. Sobretudo desde que vi um programa que a Inês de Medeiros tinha na RTP2 («O Filme da minha Vida») no qual o convidado era o Pedro Abrunhosa. O músico portuense escolheu «O Sétimo Selo», um filme que me deu um valente nó na cabeça. Nunca mais o vi, por isso atribuo-lhe uma certa aura de mitificação. É um clássico obscuro do cinema, de muito difícil compreensão. Há uns tempos fiquei pasmo quando vi a Morte (um famoso personagem deste filme) num videoclip dos «Da Weasel».
Ora este realizador de culto, esta vaca sagrada do cinema intelectual já estava quase «enterrada» quando há uns meses, out of the blue, surgiu um novo filme dele. E devido à panca do dito artista, o filme só foi exibido em salas de cinema com projecção de qualidade digital. Em Portugal, só há uma, é em Alvalade.
Como não sou maluco suficiente para o ir ver a Lisboa, esperei pela saída do DVD, que diga-se, tem estado permanentemente esgotado na banca do Público.
Pois a película revelou-se bastante interessante e de fácil interpretação. Tem uma boa fotografia e óptima música (o nome do filme vem de um andamento da Suite n.º5 para violoncelo de Bach, uma peça de um lamento muito perturbador).
O filme trata das múltiplas questões que rodeiam os relacionamentos humanos (sobretudo entre pais e filhos), ódios, paixões, enganos, ressentimentos, etc. Ou seja, vive quase exclusivamente dos diálogos e é um sucesso graças às magníficas actuações do elenco: Erland Josephson, Börje Ahlstedt, Julia Dufvenius e por fim, a espantosa Liv Ullmann.
Na minha modesta opinião, o filme não é literalmente uma obra-prima, mas é muito bom. Recomendo-o por ser humanamente enriquecedor e também por servir de iniciação ao Bergman.

Hoje, para rematar o fim-de-semana, fui à Casa da Música ouvir o último concerto do Festival «À Volta do Barroco»: a Angela Hewitt a tocar «O Cravo Bem Temperado» de Bach.

(Copyright© Simon Fowler)

Não tenho nenhum CD dela e nunca a ouvi ao vivo, mas sei pela nomeada que ela é uma excelente intérprete de Bach. Mesmo tendo consciência de que o programa é um pouco pesado, arrisquei. «Quem não arrisca, não petisca». E neste caso, era bem verdade.
O sarau foi muito bom, não foi «pesadão».

Então o que é isto de «O Cravo Bem Temperado»? Não é certamente um cravo em vinha d’alhos durante 24h ou todo esmurrado numa travessa com sumo de limão, sal e pimenta. :p
«O Cravo Bem Temperado» é dos mais importantes monumentos da história da música, é uma colectânea (Livros I & II) de «pequenas» peças para teclado, 48 Prelúdios e Fugas em todas as tonalidades existentes, nos 24 modos maior e menor: DóM, Dóm, Dó#M, Dó#m, RéM, Rém, etc.
Ao longo da História da música, houve vários e controversos métodos de afinação.
Devido à incompatibilidade de certos intervalos dentro de uma escala, a afinação de um instrumento de tecla era uma espécie de compromisso: numa dada afinação podíamos ter certos intervalos «temperados», mas outros não. Isto significava que, conforme o método de afinação, as peças soavam de maneira diferente e tambérm que havia certas tonalidades, como Dó#M, que eram proibidas – não se compunha música porque não era suportável.
Ora nos finais do séc. XVII surgiu uma novo conceito de afinação, na qual era possível tocar música em qualquer tonalidade, e Bach como resposta a isto, propôs-se a compor um conjunto de partituras em todas as tonalidades, publicando o Livro I em 1722.
São obras de enorme profundidade espiritual e com grandes dificuldades: de analisar, de tocar, e requerem um esforço redobrado por parte do ouvinte. Mas acreditem, as recompensas são indizíveis.
Este homem era uma génio sem paralelo.

Johann Sebastian Bach
por Elias Haussmann, 1748

Os méritos desta obra são de tal ordem avassaladores que um dos mais notáveis músicos do séc. XIX, Hans von Bülow, a apelidou de «O Velho Testamento da Música», sendo a integral das sonatas de Beethoven «O Novo Testamento».
Aposto que não houve nenhum grande compositor ou intérprete desde os meados do séc. XVIII que não tivesse estudado seriamente esta obra e dela retirado boa parte da sua formação. Isto inclui muito nomes sonantes: Mozart, Haydn, Beethoven, Liszt, Chopin, etc.
Como diria o pianista Mário Laginha «Se Deus existe, meteu ali o dedo, de certeza».

Retomando o concerto... foi óptimo.
A pianista canadiana tem uma articulação quase imaculada e faz muito pouco uso do pedal, o que torna a sonoridade muito mais clara e estaladiça.
Há momentos para todos os gostos: líricos como o primeiro e bastante conhecido Prelúdio em DóM (que aliás deu origem à famosa «Ave Maria» de Gounod), divertidos como o Prelúdio em Lá bemol M e também verdadeiras catedrais sonoras como a Fuga em Dó#m que, não sei bem porquê, me faz lembrar certos poemas mais maciços do Miguel Torga.

Também queria ter falado de outros concertos que assisti nos últimos tempos na Casa da Música, mas não tenho tempo.
Devia principalmente falar de um jovem pianista russo, o Alexei Volodin, que tocou a Sonata Op.111 de Beethoven com grande maturidade e que deu uma interpretação de tal maneira bombástica à Sonata n.º7 de Prokofiev que o piano tremeu que nem varas verdes e a mim até me caíram os «donos do Milou» ao chão. (desculpem o eufemismo de mau gosto, lol)
Acreditem, aquilo é extremamente difícil e ele domou o piano como poucos.

sexta-feira, outubro 07, 2005

O Código DanBrown

Acabei de reparar na data do último post. De facto, é lamentável que já cá não escreva há mais de um mês. Ainda ontem o Citcat se queixou que já estava farto de ver sempre o mesmo post aqui, ou seja, a fronha da musa anónima do Klimt.
A verdade é que ao longo de Setembro estive várias vezes para cá vir, mas acabei por ficar sempre pelo desejo.
Tenho metros de história para contar, mas como é óbvio, não vou poder relatar tudo o que se passou nesta licença sabática.
Desde o último post, fui ao Algarve, vi filmes, ouvi CDs, li livros, as aulas começaram, etc.
Já sei: vou começar pela celulose impressa.
Infelizmente, e para minha vergonha, não leio muito. Por um lado, resisti sempre aos hábitos de leitura que me tentaram incutir em criança, e por outro, ao longo do semestre não tenho um cenário que me permita pôr a leitura em dia. Por causa deste último facto, aproveito sempre as férias para namorar umas páginas.
Desta vez, foi o super-hit internacional “The Da Vinci Code” do norte-americano Dan Brown.

Como já disse num dos posts anteriores, costumo fugir dos fenómenos de massa como o Diabo da cruz, mas a minha madrinha académica (oficiosa, claro, visto eu não participar em rituais Men in Black) ofereceu-mo, pelo que eu tratei de o ler.
Devo admitir que estava curioso para ver que coelho ia sair da cartola, ou seja, porque é que este livro vendeu milhões de cópias?
Pois já o li, e foi agradável. Não o acho genial e vou já tratar de explicar porquê. Não vou escrever uma crítica literária aprofundada, pois não tenho competência para tal; quero apenas dar a minha opinião, debatível, claro.
Um dos méritos que quase todos apontavam misticamente nesta obra era o facto de ser tão cativante que não se conseguia pousar. O que não me disseram é que isto é um policial. Logo, é natural que a sua estrutura nos prenda. Quem for leitor assíduo deste género, penso que concordará comigo.
Não tem nada de extraordinário, basta um simples artifício: enredar-nos numa trama cheia de acção, acabar o capítulo antes do clímax e colocar a resolução desse episódio no início do seguinte. Como é evidente, ao acabar um capítulo, queremos logo saltar para o próximo para não ficarmos em suspenso.
Outro truque a que o escritor recorre com um espírito quase formatado é o uso de várias linhas de acção simultâneas e alternadas por capítulos. Mais um mecanismo para nos agarrar a atenção. Como resultado disto, o livro tem uns espantosos 105 capítulos!
Para além da estrutura, o autor aposta numa escrita bastante fluida, sem grandes metafísicas, o que facilita amplamente o ritmo de leitura.
Aflorados os aspectos formais, convém atentar no conteúdo propriamente dito.
Diga-se que é quase universal o gosto por mistérios, enigmas, intriga, e mais recentemente pelas chamadas teorias da conspiração – um traço muito «estado-unidense» - por isso, não espanta que a obra seja um sucesso, sobretudo tendo em conta as matérias-primas: Jesus Cristo, a Igreja Católica, a Opus Dei, o Santo Graal, etc.
É espantoso, funciona quase como uma receita.
Uma das coisas que mais apreciei foram as descrições de vários locais que visitei, sobretudo em Paris – uma verdadeira viagem no tempo. Sobre os que não conheço, procurei logo fotos para satisfazer a curiosidade.
Outro grande ponto de interesse foi o facto de ter relembrado algumas noções e factos que estavam empoeirados no meu sótão cinzento e também ter aprendido muitas coisas novas que desconhecia. Infelizmente, fiquei a saber recentemente que o escritor apresenta como factos, situações que nunca ocorreram – algo que me decepcionou bastante.
Uma coisa é lermos a teoria altamente fantasiosa sobre o legado de Jesus Cristo e gostar disso, encarando-a como tal: uma tese, outra é manipular dados históricos e até inventar alguns, e.g., fazer uso de interpretações etimológicas erradas e dizer que os cavaleiros Templários foram chacinados e os seus corpos deitados pelo Papa ao rio Tibre – algo que nunca aconteceu.

Manuscrito francês do séc.XV mostrando dois templários na fogueira

Ora isto incomoda-me pelo seguinte: fiquei todo contente por ter adquirido novos e importantes conhecimentos, mas venho agora descobrir que não são dignos de confiança. Reparem que eu só sei de algumas imprecisões no “Código”, mas houve historiadores que escreveram livros inteiros só sobre as suas incorrecções. Fica a questão: O que é que é fantasia e realidade nesta obra?
À medida que ia folheando as páginas, pensava no seguinte: «Isto é uma valente bofetada na Opus Dei. Será que eles não processaram o Dan Brown por tê-los denegrido? E como é que eles estão impávidos e serenos a assistir a todo este fenómeno? E o filme que vai ser feito, eles não vão tentar impedir o projecto?». Ao tentar responder a estas perguntas, fui ter ao site da Opus Dei.
De facto, lá estava uma página a defenderem-se contra as supostas «calúnias» escritas no “Código”, mas fiquei sem saber se eles tomaram alguma medida judicial contra o D.Brown. Aproveitei também para conhecer melhor os meandros da instituição e a vida do seu fundador São (!) Josemaria Escrivá – sim, ele foi canonizado! Para quem quiser saber mais sobre esta pseudo-seita e as inúmeras polémicas que a rodeiam recomendo também a página da Wikipedia.

Josemaria Escrivá

Retomando a escrita do Sr. Castanho...
Outro elemento negativo (lamento referir mais um) foi o facto de eu ter adivinhado desde cedo a real identidade de uma das personagens (quem leu o livro, sabe de quem falo), o que me chateou um pouco.
Lembro-me de quando era pequeno e devorava livros da Agatha Christie; só houve um no qual eu consegui deslindar o fim. Por um lado, fiquei contente, mas por outro, achei que por esse facto, o livro não era bom. Fiquei com um gosto agridoce no meu espírito. O mesmo se passou com este: fiquei satisfeito por ver confirmadas as minhas suspeitas, mas desiludido por não ter sido iludido.
Vamos agora às «positividades»: um dos louvores que faço ao autor é o facto de ele se ter dado à considerável trabalheira de inventar todos aqueles versos e anagramas – tiro-lhe o chapéu.
Acima de tudo, gostei que ele tocasse e defendesse (pela voz do protagonista) dois assuntos que considero muito pertinentes: 1º - a temática da humanidade (e consequente mundaneidade) de Jesus Cristo (sobre a qual já escrevi há uns meses atrás), 2º - a perda da adoração do feminino nas religiões modernas, mais concretamente, no Cristianismo. Foi, tristemente diga-se, um dos factores decisivos para o estabelecimento do desequilíbrio entre sexos na sociedade ocidental. Sim, temos a Virgem Maria. Mas mesmo ela, é o caso de uma feminilidade condicionada e não na sua total força.

"Mary Magdalene" de F. Sandys, 1859

Concluindo, mesmo com os seus defeitos, recomendo-o, foi uma leitura bem interessante (que serviu, entre várias coisas, para revitalizar o meu inglês).
Tinha também planeado falar sobre uns concertos na Casa da Música, mas isso terá que ficar para a próxima vez.
Até lá. :)

sexta-feira, agosto 26, 2005

Estória para um Quadro

«Dama com Chapéu e Cachecol de Plumas»
de Gustav Klimt, 1909

Vi-te.
Vi-te por entre aquela bruma esquecida, a que seguia naquela noite gélida - desprendidamente e sem sentido. Caminhava apenas, solto, sem pensamento, guiado por ela, sob aquele luar ciano que me entorpecia os sentidos. Deambulava como um espectro pelas ruas invernosas de Viena.
De súbito, encontrei-me na Michaelerplatz, bem no seio da agitação elegante dos casais e do vaivém febril dos fiacres. Atravessei precipitadamente as arcadas do Hofburg para fugir dali; um pequeno banco vermelho, escondido e com as ripas de madeira já cansadas, deu-me asilo, mesmo à entrada do Volksgarten.
Foi então que te vi.
Vi-te.
Surgiste fora de tempo, o teu andar mostrava-o: os passos tranquilos e seguros, com uma leveza inexplicável, deslocados da cidade que nos rodeava, um alvoroço de cores e movimento.
Estavas toda de preto, com um casaco de fazenda comprido, esbelto, punhos de pele de um branco luminoso; uma abundante gola plumada velava-te inicialmente os lábios cheios e ardentes. Por detrás dela, moravas resguardada, a tua face encimada por um volumoso chapéu adornado com uma faixa lápis-lazuli.
A majestade da tua figura não é passível de ser descrita. Não sei bem o que havia de especial em ti. Se a tua pele de pêssego, se o teu cabelo cor de fogo, se o verde marinho dos teus olhos, semi-cerrados, felinos, irradiando uma superioridade honesta e perturbante. Não sei. Eras insondável.
Fitei-te intensamente, imerso no desejo de te abraçar e de te ofertar um beijo arrebatado. Retribuiste-me o olhar, mas não sei se o conseguiste ler profundamente.
Olhaste-me somente por um instante: uma imagem que ficou pintada na minha memória com o rigor de uma fotografia. Ainda hoje a preservo.
Vi-te a ires embora placidamente, aparentemente não ferida pela nossa descoberta, a tua presença ao mesmo tempo negra e brilhante a dissolver-se aos poucos na penumbra daquele pequeno bosque.
Não corri atrás de ti, resignei-me à minha cobardia e fiquei petrificado naquelas velhas tábuas, sonhando de imediato contigo, cultivando logo ali a saudade futura da tua visão.
Apaziguei-me e as horas fluíram rapidamente como num regato primaveril.
Continuei sereno, num estado etéreo, esperando que o dia nascesse e que a minha divagação nocturna findasse. Já não me recordo se Helios chegou a despontar no céu, lembro-me apenas de que fui testemunha da tua aparição, de que Te Vi.